Thursday, January 05, 2006

cacos

Numa esquina a vi e realmente não lembro qual copo espatifou-se: foi minha mão trêmula que fez do vidro areia ao vê-la ou, quando olhou-me, de súbito seus músculos lembraram da fadiga que experimentavam das vezes que se deitava comigo, só comigo? Houve de fato alguma perda ao dono do bar? Certeza tenho é que ela estava acompanhada e eu queria estar: desejei seu olhar percorrendo o corpo de qualquer estranha, um ciúme barato, inveja calculada daquelas dissimuladas em telenovelas. Com ou sem cacos a situação virou martírio e eu inflava o peito toda vez que se atirava nos braços dum estranho que agora media. Dentro da minha cabeça seu cheiro confundia-se com o sabor do vinho e algo me dizia que de seu ventre vazava uma tesão, quase uma raiva doce, sanada apenas por uma erupção violenta longe dali, isolados, sozinhos num mundo sem deuses e sem demônios olhos ou ouvidos, pois assim éramos puros, um dia fomos, imbatíveis, senhor senhora de qualquer tempo, donos incontestes de todas as vidas que inventávamos enquanto eu ditava o ritmo das marés e ela decidia se hoje a lua estaria cheia ou minguante. Parceiros infernais separados por sete garrafas quase vazias, três porções de polenta ou lula à dorê inacabadas, falsas risadas e conversas banalizadas; duas mesas de um espaço intransponível e num banheiro encontrado a vinte e nove passos de distância. Ao que os olhos se encontraram não ousamos tocar sequer um centímetro de pele e permanecemos imóveis perdidos na vastidão das angústias que se somavam. A porta de ferro cerrou, os bêbados calaram-se, as paredes ruíram e o vento tratou de levar consigo o pó que teimou em restar. Surdos mudos e inertes, esquecidos de garçons, teatro ou ano novo, demoraram-se a jorrar as lágrimas daquele amor decididamente interrompido.