Wednesday, November 07, 2007

bicho

qual teu bicho?
qual tamanho do teu bicho?
onde deixa teu bicho, onde o guarda?
como recolhe as fezes do teu bicho, ou o mijo?

como deixa o bicho sair, ser, transparecer?
como deixa o bicho viver?


teu bicho fala?
teu bicho ouve?
ouve o que teu bicho fala?

teu bicho sente?
ou teu bicho senta e dá a pata?
sente teu bicho?

teu bicho foi, teu bicho é ou teu bicho ainda vem?
qual teu bicho?
teu bicho é, teu bicho vem ou teu bicho já foi?
qual tamanho do teu bicho?

aonde vai teu bicho? até onde vai teu bicho?
teu bicho é bom ou ruim?
teu bicho sabe ir e voltar? teu bicho sabe ao menos ir?
teu bicho sabe pra onde ir? sabe voltar?

teu bicho sabe voar?
e pousar, sabe teu bicho?
teu bicho sabe planar?

qual teu bicho?
qual tamanho do teu bicho?

teu bicho é pequeno, é bicho pouco;

é bicho que caga, mija e não recolhe;
é bicho que não sai, não é, tampouco transparece;
é bicho que não vive;

é bicho que fala e não ouve o que fala;
é bicho que não sente e dá a pata;
é bicho que desconhece o tamanho, que não pesa a bagagem;
é bicho que não sente dor, que não sente o quanto outros bichos sentem;
bicho que não sente o próprio bicho;

é bicho que tá indo sem saber como voltar;
bicho que tá voando e caindo sem ter onde pousar.

Friday, September 28, 2007

planos

foram as velas pra Exu, as flores mortas nas garrafas velhas restaram; tantas palavras ficaram quietas e muitos risos serão lágrimas nos últimos goles; das promessas, a poeira deixada caprichosamente no centro da sala.

vazia.

e de outro plano fazem agora parte os sonhos que tivemos de fazer planos; o plano é não sonhar mais.

as vezes que deixamos de contar não as conto mais; por vezes deixamos de sentir e isso me incomoda cada vez mais; trilhamos um caminho absurdo de súplicas e desejos, de loucuras e mesmices, numa cama onde corpos se contorciam e braços não torciam; para além dela, um homem e um menino.

viu o homem estilhaços de vidro na entrada de sua casa, vi um menino recolhendo memórias; viu o homem pedaços de vida jogados no lixo, vi um menino catando cacos; viu o homem restos de si deixados na calçada, vi um menino.

Tuesday, March 27, 2007

veloz

a ânsia de passar o tempo, o desconforto; a velocidade que atinge os pés dos pedais incomoda; o medo de viver o momento e a falta de estímulo para deixar o agora ficar e passar. eu era perspicaz, sabia exatamente o momento de calar. mas a euforia dos novos dias, dos novos tempos, do novo tempo, fez-me mais rápido com as palavras e com as ações do que com as idéias. costumava ser útil ter idéias, tomar um certo tempo para refletir. não mais: a velocidade de um tempo veloz não dá valor às interpretações das idéias: a velocidade as quer realizadas sem sombra de dúvida. me perco e me acho; e me perco e me acho e me perco e me acho e me perco e me acho e me encontro passando por mim sem tempo pra dizer tudo aquilo que um outro encontrara. a velocidade das coisas. do tempo, posso e tenho como absorver frações de milésimos de segundos, ao mesmo tempo em que analiso, vislumbro e interpreto eras, anos-luz e infinitos. posso ser como aqueles de agora e posso como aqueles de outrora. posso, simples assim. mas o fluxo, o fluxo me leva enquanto durmo, quando pestanejo, assim que baixo a guarda; um fluxo intenso de ações, palavras e regras ditas e repetidas antes mesmo que pense estar num ventre. o silêncio está cada vez mais distante de mim. escuto, falo, escuto, falo, escuto, falo e não penso, propenso a um curso claro, lógico, estabelecido. para onde foi aquele silêncio que tão bem ouvia? o momento, onde diabos se meteu o momento? o hoje é um ontem sem memória, deslumbrado com o dia seguinte do amanhã.

Thursday, January 04, 2007

busca

são tantas as palavras: tanto sangue, tanta terra. o caminho que me trouxe aqui foi longo - reconheço, foi longo, não posso virar o rosto; caminho árduo. poxa, até Baden disse, e se até Baden disse, tenho de crer. creio. é tanto peso, tanta dor - tenho certeza, Baden sentiria menos, ou pouco. gotas, ouço uma música a falar de gotas e rosas e pássaros; a música fala de uma chuva, boa. ela disse que um dia a procuraria. tenho certeza, a procuraria mesmo se não mais existisse chuva. nasci destinado a fazer tudo de errado com meus presentes, a nunca aprender com os carrinhos queimados nas encenações de guerra; nasci entre guerras. hoje, escrevo cartas pedindo cartas de boas notícias. estou longe, onde vejo sangue, terra e cartas, nunca lidas. as cartas não serão lidas. a pergunta é: sabendo da guerra, do sangue e das cartas, saberei eu pisar a terra? e quando pisar, terei como evitar a dor? pé ante pé a evitá-la, e a dúvida seguiu-me. e já não bastam as gotas, as rosas, ou os amores das madrugadas que teimam em ir até mais tarde; do dia sem fim bebo a magnitude, no fim da noite dou adeus à aurora e perco o sono, acordado entre estranhos perdidos em suas próprias nações, perdido em nacões de estranhos em meu próprio sonho. queimo os carrinhos e delicio-me com as chamas. e eis que chega, em silêncio e de roupas limpas:
- muito prazer, Crueldade.