Doeu quando ela disse o que passara não tinha sido brincadeira.
Ali soube o fim ganhava voz e apenas eu ouvia.
E era ela o gato preto no muro da esquina, era dela a lama na pegada fria do caminho frio e da folha marrom que lentamente caiu, brilhou seu sorriso. A cama mais vazia chora agora uma lágrima amarga e afogo.
Vê-me no carro que passou veloz? sente meu cheiro quando sai do banho e se enrola na toalha que foi um dia chão? dorme ofegante enquanto pouso leve em sua coxa?
Venço o medo e saio e a procuro por entre prédios, pelas vielas, nos viadutos que me levam sempre de volta. Caminho por países vazios e salas cheias de gente, vasculho emoções partidas de pessoas em busca de afago e acabo em fundos de copos sujos, em botecos sujos, em noites cada vez mais sujas.
Joguei cartas com o demônio e em sua casa matei deus por três vezes; da primeira perdoou-me, da segunda também; na terceira lâmina disse-me adeus, e blefei. Perdi. Na saída, dependurei minhas fichas numa parede descascada pelo tempo, ao lado das de outros apostadores que como eu nunca souberam ganhar. Tranquei a porta.
Da janela que hoje olho, olhos escuros cansados fundos vêem através de mim o que ainda resta. Virá ela ver-me?
Saturday, December 17, 2005
Sunday, December 11, 2005
ainda
Um homem cansado respira profundamente. Ao inspirar percebe não apenas o ar poluído preenchendo seus pulmões e nota, perplexo, que todo o mundo está agora em seu interior. Incrédulo põe-se a caminhar.
Sozinho no vazio sente-se inexplicavelmente revigorado.
Pára, olha em volta. Uma ânsia repentina toma-lhe o corpo: vomita o próprio coração.
Alguns poucos gramas de músculo e veias e sangue palpitam no chão bem diante de seus olhos. Toca o peito procurando entender como ainda permanece vivo.
Sem respostas, vagueia por seu novo domínio despreocupado se em algum momento cairá morto - ainda está bem, mesmo não tendo um coração para pulsar seu sangue quente.
Inusitado o fato de não mais haver coisas e pessoas e lugares. Inconformado e um tanto incomodado tenta, em vão, vomitar algo palpável - acredita que assim ficará confortável.
Percebe, surpreso, que sua incessante busca pelo silêncio terminara. Na verdade, sente que o silêncio o escolhera: sente-se afortunado.
Escuta, sem pensar no tempo, o som do vácuo por um longo tempo. Espera. Permanece mudo e imóvel... desespera: precisa ouvir algum som.
Pensa em gritar e não o faz - o medo de não ouvir a própria voz lhe cala a alma.
Acalma-se. Respira fundo mais uma vez. O fato de não haver cheiro algum não causa espanto algum.
Não cheira, não fala, não ouve. Acostuma-se com a idéia.
Olha para as mãos, percorre os olhos pelo corpo. Constata que ainda está, ainda é. Apalpa-se e fica confuso ao tentar interpretar aquela não-sensação. Sabe que está lá, pode ver-se, mas não sente nada. Olha para os lados na inútil esperança de encontrar algo para testar seu tato - lembra-se de que não há mais lados.
Olha para baixo. Agacha-se tentando tocar o chão: não há chão. Vê-se flutuando no nada - se não tivesse pensado no chão talvez ainda o estivesse pisando.
Habitua-se à nova situação e relaxa, voa pelo não-lugar.
Por não haver fim, não sentir vento no rosto, não escutar zunido algum aos ouvidos, nota que não está em movimento: está parado no nada.
Fecha os olhos e tenta imaginar o mundo como conhecia - talvez seja tudo apenas uma questão de imaginação.
Não consegue mais abri-los: a visão o abandonara.
Começa então a lembrar: pensa na infância e em como era bom o despertar ao canto dos pássaros; como gostava do tilintar das cordas do velho violão.
Todas as besteiras que disse e algumas que ficaram por dizer.
Pensa na fumaça do café - não tomava café, mas o cheiro lhe dava um prazer enorme.
Lembra das mulheres com quem se deitou: todas, belas em suas peculiaridades. Os abraços carinhosos dos amigos não foram esquecidos.
A noite sempre fora maravilhosa: contemplava as estrelas e sempre que tentava entendê-las, fatigava-se - aquela parede ficaria melhor de verde.
Pensa um pouco no tempo, mas não por muito tempo.
Como será a vida a partir de agora: a vida vivida no nada?
Pensa na morte. Pára de pensar.
Sozinho no vazio sente-se inexplicavelmente revigorado.
Pára, olha em volta. Uma ânsia repentina toma-lhe o corpo: vomita o próprio coração.
Alguns poucos gramas de músculo e veias e sangue palpitam no chão bem diante de seus olhos. Toca o peito procurando entender como ainda permanece vivo.
Sem respostas, vagueia por seu novo domínio despreocupado se em algum momento cairá morto - ainda está bem, mesmo não tendo um coração para pulsar seu sangue quente.
Inusitado o fato de não mais haver coisas e pessoas e lugares. Inconformado e um tanto incomodado tenta, em vão, vomitar algo palpável - acredita que assim ficará confortável.
Percebe, surpreso, que sua incessante busca pelo silêncio terminara. Na verdade, sente que o silêncio o escolhera: sente-se afortunado.
Escuta, sem pensar no tempo, o som do vácuo por um longo tempo. Espera. Permanece mudo e imóvel... desespera: precisa ouvir algum som.
Pensa em gritar e não o faz - o medo de não ouvir a própria voz lhe cala a alma.
Acalma-se. Respira fundo mais uma vez. O fato de não haver cheiro algum não causa espanto algum.
Não cheira, não fala, não ouve. Acostuma-se com a idéia.
Olha para as mãos, percorre os olhos pelo corpo. Constata que ainda está, ainda é. Apalpa-se e fica confuso ao tentar interpretar aquela não-sensação. Sabe que está lá, pode ver-se, mas não sente nada. Olha para os lados na inútil esperança de encontrar algo para testar seu tato - lembra-se de que não há mais lados.
Olha para baixo. Agacha-se tentando tocar o chão: não há chão. Vê-se flutuando no nada - se não tivesse pensado no chão talvez ainda o estivesse pisando.
Habitua-se à nova situação e relaxa, voa pelo não-lugar.
Por não haver fim, não sentir vento no rosto, não escutar zunido algum aos ouvidos, nota que não está em movimento: está parado no nada.
Fecha os olhos e tenta imaginar o mundo como conhecia - talvez seja tudo apenas uma questão de imaginação.
Não consegue mais abri-los: a visão o abandonara.
Começa então a lembrar: pensa na infância e em como era bom o despertar ao canto dos pássaros; como gostava do tilintar das cordas do velho violão.
Todas as besteiras que disse e algumas que ficaram por dizer.
Pensa na fumaça do café - não tomava café, mas o cheiro lhe dava um prazer enorme.
Lembra das mulheres com quem se deitou: todas, belas em suas peculiaridades. Os abraços carinhosos dos amigos não foram esquecidos.
A noite sempre fora maravilhosa: contemplava as estrelas e sempre que tentava entendê-las, fatigava-se - aquela parede ficaria melhor de verde.
Pensa um pouco no tempo, mas não por muito tempo.
Como será a vida a partir de agora: a vida vivida no nada?
Pensa na morte. Pára de pensar.
o amanhã do ontem
Hoje antigas feridas despertaram abertas. Os lençóis manchados de um vermelho pútrido fediam tamanha carniça que resolvi queima-los.
... o teto respirava e aquele movimento pulmonar tragava-me junto: ora eu era teto ora cama. Da espiral nauseante de olhos inebriados surgiam formas e cores e as texturas dela. Sua pele rangia na minha e o som da fusão do meu corpo ao dela acariciava a mente enquanto navalhas finas trespassavam minha carne com extrema perícia e dissimulação. Machucava-me cirurgicamente...
Fiz disso um evento: em praça pública enrolei-me naqueles pedaços sujos de pano e entoei preces medíocres e recitei peças de efeito. Por fim, aos berros, atirei os púrpuros ao chão e num gole de álcool com fósforos em mãos taquei fogo em lembranças dificilmente esquecidas com breves chamuscas.
... pois frente à lareira seu sorriso pareceu perfeito: haviam semanas que eu amava essa mulher e quanto mais com ela fazia mais queria: o calor do fogo refletido em sua pele alva atiçava os sentidos dum eu carente e adormecido. O cair da alça, a palavra sem jeito; na volta da cozinha a delicadeza com que ela soprava o café, tudo; seus movimentos eram preciosos...
Ontem a louca me atiçava dizendo coisas tão pérfidas quanto em nosso primeiro encontro. Dizia não, sussurrava e gemia enquanto via que quanto mais lasciva era mais prazer estranho suscitava. Era como se acossado permanecesse entregue a quaisquer palavras proferidas por aquela deliciosa imensa boca. Levou-me por caminhos incertos e de frente encarei demônios; olho no olho com temíveis senhores de medos meus senti calafrios. Tremia como se os pés estivessem fincados nus em gelo polar. Enfim sucumbi.
... porque você não ama ninguém! Com aquele jeito dela depravado de trepar, destrinchava e esmiuçava os pormenores dum eu ser consciente e que feliz, trepava. E você, me ama? Amo, amo a parte reservada, aquela que você, egoísta, me dá. Eu amaria todo o resto do resto do seu todo, mas você calcula quando sentir deveria. Um mês e o que me deu foi a tua pele...
Amanhã saí e bebi muito. Por algumas poucas horas quase esqueço que uns vieram querendo levar-me preso, outras levar meu número. Os olhos inchados na manhã do espelho seguinte fizeram-me tossir ao sentir peito e crânio explodindo num misto de êxtase e desânimo.
... sete horas da manhã e um louco envolto em trapos começa a discursar. À primeira vista mais um com uma caneca ou um chapéu esperando a boa vontade de transeuntes acostumados a mambembes fora de hora. Mas não, o espetáculo não fora ensaiado nem a estréia anunciada: as dores estavam ali, expostas; o ritmo, nervoso, cadenciado de improviso...
De noite voltei à praça. As cinzas permaneciam exatamente como as havia deixado: cinzas. E por mais que tentasse não havia como negar o revérbero de sentar-me num banco propício e num ato sentir-me parte de toda aquela praça, todo aquele mundo; sentir-me parte do tempo, cruel.
... eram ainda brasa e queimaram as mãos dum eu confuso: o dia sofrido que era sonho ardia agora numa realidade pura, inquestionável. De palmas sujas ouvi novamente os gritos dos estranhos que apoiavam, dos conhecidos que negavam, dos distraídos que apenas observavam. Dos sábios e dos leigos recebi as mesmas dúvidas: destes o quando e daqueles o porquê...
Ontem acordei e cedo era ainda quando levantei da cama para banhar o corpo. Tomei café e refleti e só depois do almoço o primeiro cigarro virou fumaça. Era labuta e os afazeres dominaram pensamentos e ações. No ocaso voltei pronto a ter uma boa noite de sono, daquelas em que sonhos, por mais perfumados, não conseguem atrapalhar. Banhei-me novamente e ridículo nos pijamas adormeci.
... uma massagem despropositada nos ombros surgiu e eu deitava numa rede enquanto ela acariciava meus cabelos cortados no dia anterior: incomodava pra dormir. Despertei e meus olhos frenéticos a procuraram imediatamente e quando a respiração cessou de ofegar o vazio dum quarto vazio verteu lágrimas. As paredes úmidas me encararam uma última vez...
Foi aí que ela veio arrebatadora como só ela sabe ser e arrancou-me da cama e fez-me voar.
... pelo cheiro dum ventre invadido, e agora eu era um bicho e de minha cabeça emanava uma luz que encontrava a luz dela e percorria seu corpo já suado e mole com ferocidade, enquanto duma outra luz que vinha de baixo, eu recebia um calor sórdido e nessa quentura de verão baiano eu me entregava à volúpia desmedida duma ela senhora de prazeres ocultos e eu à flor da pele...
Perfeito e sublime quando ela jocosa arremessou-me ao chão. Pelo pescoço agarrou, chocalhou e fitou meus olhos e sorriu; e lá fui eu, setecentos e cinqüenta e dois quilos de mágoa de encontro ao leviano solo terrestre.
... naquela mesma hora senti que a dor era mais do que uma simples dor ordinária: o tom ensurdecedor daquele telefone mudo retorcia meus músculos e estes pareciam querer esmigalhar meu esqueleto. Nas veias corria um rio gelado e meu coração e meus pulmões forçavam para fora da minha carne e meu intestino enrolava-se na garganta sufocando o resto de ar que havia...
Enterrado naquela cratera permaneci apavorado, ainda que incólume, e aguardei a próxima viagem com ouvidos de pastor de ovelhas. Até hoje tenho dúvidas se ela acordou com o tempo, pois décadas passaram e num sem número de eras depois ela se fez cratera. Envolveu com muitos braços um eu fraco e, murmurante, pôs-me num ninho quente de tão doce quase desumano.
... e era verão novamente mas desta vez o calor me acolhia por todos os lados: eu pairava num mormaço gelatinoso e ela veio e sensualmente dançou pra mim: a tomei nos braços e agora ao som de sinfonias deslizávamos por um belo salão de mármore e ela trajava gala e eu trajava gala. Como num tango meus olhos não se separaram dos dela e os passos revelavam maestria...
Em meio a pedras soltas e raízes longas e espessas e restos de ossos de outrora enterrados fui levado ao fundo daquela terra ferida. Depois de fraco um covarde, omisso, um impotente. Eu não reagi e antes disso nunca agi, nunca fiz. Naquele denso colo sádico e convidativo, o eu, cru e despido, foi arrancado de seu nobre pedestal e atirado numa cela escura três por dois de cujo resto de janela, da penumbra duma luz distante, emanavam sombras do doente que sempre fora.
... corri, e quanto mais rápido ia mais longe a avistava. Gritei até perder a voz e ela indiferente. Parei e em minha direção ela veio e atravessou-me como fumaça. Disperso, tentei uma última artimanha: num ato desesperado arranquei minha pele e, esquecendo antigos conselhos, ajoelhado ofereci todo meu invólucro. De olhos aguados e mágoas latentes tomou a pele, vestiu, beijou-me e sumiu.
Acordei dopado e preso olhei pro teto e sorri.
... o teto respirava e aquele movimento pulmonar tragava-me junto: ora eu era teto ora cama. Da espiral nauseante de olhos inebriados surgiam formas e cores e as texturas dela. Sua pele rangia na minha e o som da fusão do meu corpo ao dela acariciava a mente enquanto navalhas finas trespassavam minha carne com extrema perícia e dissimulação. Machucava-me cirurgicamente...
Fiz disso um evento: em praça pública enrolei-me naqueles pedaços sujos de pano e entoei preces medíocres e recitei peças de efeito. Por fim, aos berros, atirei os púrpuros ao chão e num gole de álcool com fósforos em mãos taquei fogo em lembranças dificilmente esquecidas com breves chamuscas.
... pois frente à lareira seu sorriso pareceu perfeito: haviam semanas que eu amava essa mulher e quanto mais com ela fazia mais queria: o calor do fogo refletido em sua pele alva atiçava os sentidos dum eu carente e adormecido. O cair da alça, a palavra sem jeito; na volta da cozinha a delicadeza com que ela soprava o café, tudo; seus movimentos eram preciosos...
Ontem a louca me atiçava dizendo coisas tão pérfidas quanto em nosso primeiro encontro. Dizia não, sussurrava e gemia enquanto via que quanto mais lasciva era mais prazer estranho suscitava. Era como se acossado permanecesse entregue a quaisquer palavras proferidas por aquela deliciosa imensa boca. Levou-me por caminhos incertos e de frente encarei demônios; olho no olho com temíveis senhores de medos meus senti calafrios. Tremia como se os pés estivessem fincados nus em gelo polar. Enfim sucumbi.
... porque você não ama ninguém! Com aquele jeito dela depravado de trepar, destrinchava e esmiuçava os pormenores dum eu ser consciente e que feliz, trepava. E você, me ama? Amo, amo a parte reservada, aquela que você, egoísta, me dá. Eu amaria todo o resto do resto do seu todo, mas você calcula quando sentir deveria. Um mês e o que me deu foi a tua pele...
Amanhã saí e bebi muito. Por algumas poucas horas quase esqueço que uns vieram querendo levar-me preso, outras levar meu número. Os olhos inchados na manhã do espelho seguinte fizeram-me tossir ao sentir peito e crânio explodindo num misto de êxtase e desânimo.
... sete horas da manhã e um louco envolto em trapos começa a discursar. À primeira vista mais um com uma caneca ou um chapéu esperando a boa vontade de transeuntes acostumados a mambembes fora de hora. Mas não, o espetáculo não fora ensaiado nem a estréia anunciada: as dores estavam ali, expostas; o ritmo, nervoso, cadenciado de improviso...
De noite voltei à praça. As cinzas permaneciam exatamente como as havia deixado: cinzas. E por mais que tentasse não havia como negar o revérbero de sentar-me num banco propício e num ato sentir-me parte de toda aquela praça, todo aquele mundo; sentir-me parte do tempo, cruel.
... eram ainda brasa e queimaram as mãos dum eu confuso: o dia sofrido que era sonho ardia agora numa realidade pura, inquestionável. De palmas sujas ouvi novamente os gritos dos estranhos que apoiavam, dos conhecidos que negavam, dos distraídos que apenas observavam. Dos sábios e dos leigos recebi as mesmas dúvidas: destes o quando e daqueles o porquê...
Ontem acordei e cedo era ainda quando levantei da cama para banhar o corpo. Tomei café e refleti e só depois do almoço o primeiro cigarro virou fumaça. Era labuta e os afazeres dominaram pensamentos e ações. No ocaso voltei pronto a ter uma boa noite de sono, daquelas em que sonhos, por mais perfumados, não conseguem atrapalhar. Banhei-me novamente e ridículo nos pijamas adormeci.
... uma massagem despropositada nos ombros surgiu e eu deitava numa rede enquanto ela acariciava meus cabelos cortados no dia anterior: incomodava pra dormir. Despertei e meus olhos frenéticos a procuraram imediatamente e quando a respiração cessou de ofegar o vazio dum quarto vazio verteu lágrimas. As paredes úmidas me encararam uma última vez...
Foi aí que ela veio arrebatadora como só ela sabe ser e arrancou-me da cama e fez-me voar.
... pelo cheiro dum ventre invadido, e agora eu era um bicho e de minha cabeça emanava uma luz que encontrava a luz dela e percorria seu corpo já suado e mole com ferocidade, enquanto duma outra luz que vinha de baixo, eu recebia um calor sórdido e nessa quentura de verão baiano eu me entregava à volúpia desmedida duma ela senhora de prazeres ocultos e eu à flor da pele...
Perfeito e sublime quando ela jocosa arremessou-me ao chão. Pelo pescoço agarrou, chocalhou e fitou meus olhos e sorriu; e lá fui eu, setecentos e cinqüenta e dois quilos de mágoa de encontro ao leviano solo terrestre.
... naquela mesma hora senti que a dor era mais do que uma simples dor ordinária: o tom ensurdecedor daquele telefone mudo retorcia meus músculos e estes pareciam querer esmigalhar meu esqueleto. Nas veias corria um rio gelado e meu coração e meus pulmões forçavam para fora da minha carne e meu intestino enrolava-se na garganta sufocando o resto de ar que havia...
Enterrado naquela cratera permaneci apavorado, ainda que incólume, e aguardei a próxima viagem com ouvidos de pastor de ovelhas. Até hoje tenho dúvidas se ela acordou com o tempo, pois décadas passaram e num sem número de eras depois ela se fez cratera. Envolveu com muitos braços um eu fraco e, murmurante, pôs-me num ninho quente de tão doce quase desumano.
... e era verão novamente mas desta vez o calor me acolhia por todos os lados: eu pairava num mormaço gelatinoso e ela veio e sensualmente dançou pra mim: a tomei nos braços e agora ao som de sinfonias deslizávamos por um belo salão de mármore e ela trajava gala e eu trajava gala. Como num tango meus olhos não se separaram dos dela e os passos revelavam maestria...
Em meio a pedras soltas e raízes longas e espessas e restos de ossos de outrora enterrados fui levado ao fundo daquela terra ferida. Depois de fraco um covarde, omisso, um impotente. Eu não reagi e antes disso nunca agi, nunca fiz. Naquele denso colo sádico e convidativo, o eu, cru e despido, foi arrancado de seu nobre pedestal e atirado numa cela escura três por dois de cujo resto de janela, da penumbra duma luz distante, emanavam sombras do doente que sempre fora.
... corri, e quanto mais rápido ia mais longe a avistava. Gritei até perder a voz e ela indiferente. Parei e em minha direção ela veio e atravessou-me como fumaça. Disperso, tentei uma última artimanha: num ato desesperado arranquei minha pele e, esquecendo antigos conselhos, ajoelhado ofereci todo meu invólucro. De olhos aguados e mágoas latentes tomou a pele, vestiu, beijou-me e sumiu.
Acordei dopado e preso olhei pro teto e sorri.
medo
Quando o grande relógio batesse sete horas, e o sino da torre soasse suas já ensurdecedoras sete badaladas, fariam exatamente dois dias que encontrava-se ali. Aquele canto da praça, observado com extrema cautela durante meses, era o esconderijo perfeito: escuro, esquecido e evitado por todas as pessoas.
Nos últimos meses vinha tendo a estranha sensação de que apenas naquela praça seus angustiantes tormentos lhe davam alguma folga. Caminhava sempre durante o crepúsculo, sentava-se nalgum banco e distraía-se observando o balanço das árvores, ouvindo o canto dos últimos pássaros, escutando atentamente o delicioso uivo do vento passando por entre galhos, frestas e cantos tão singulares daquela belíssima praça.
Sentado ali, absorto, sentia que o verbo dava-lhe descanso. Durante todo o tempo que permanecia maravilhado com todas aquelas demonstrações singelas de efemeridade, conseguia esquecer completamente que em breve iria mata-la. Ela, a pessoa que ele mais amava, a mulher que o havia enfeitiçado, inebriado todos seus sentidos com sua beleza simples e poderosa, com sua presença fria e ao mesmo tempo aterradora, desconcertante. Dela, por debaixo de toda aquela postura austera e acanhada, emanava uma chama intensa como o fogo do inferno. Em seus olhos, ele via o ardor incandescente que brotava de dentro dela, a paixão devastadora que ela lhe guardava; em seus passos, contemplava a leveza daquele ser perfeito. Era sua musa, sua deusa, a imagem esmagadora presente em todos os seus pensamentos. Era ela a quem mataria.
A conheceu na praia, durante o inverno. Caminhava distraído, de pés descalços na areia, deixando pegadas despreocupadas na espuma das ondas. De repente, como se um raio lhe atingisse bem no meio do peito, teve a visão que a partir daquele momento nunca mais sairia de suas retinas: linda e compenetrada, ela caminhava, cabisbaixa, em sua direção, a uns trezentos passos de distância. Súbito seu coração começou a pulsar violentamente, sua vista escureceu, suas pernas bambearam e um calor intenso subiu por sua espinha. Sentiu-se bêbado, torto, estava completamente apaixonado por aquela misteriosa mulher que acabava de avistar. Parado, sem ação, acompanhou seus passos cada vez mais próximos. Quando o avistou, ela já se encontrava a uns cem passos dele e assustada, parou também. E ficaram assim, postados um na frente do outro, olhando-se diretamente nos olhos por um tempo incontável. Ela deu uma passo para trás e ele, um à frente. Ele deu outro passo e ela não se moveu. Naquele momento, sentiu seus pensamentos esvaindo, seu peito esvaziando. Não ouvia nada, não enxergava nada, apenas ela, era como se todo o mar, toda a areia e todo o céu deixassem de existir num piscar de olhos. Ela, apenas ela e nada mais. Deu mais um passo adiante, ela novamente não se moveu. Mais um passo e desta vez, ela deu outro, em sua direção. A alegria já não podia ser contida. Seus olhos brilharam, as mãos suaram e os pés tremeram; por dentro, como uma locomotiva desgovernada, seu coração parecia bater em todas as partes de seu corpo. Mais dois passos e ela repetiu o mesmo movimento. Agora já estava evidente. Por mais estranho que fosse, por incrível e absurda que parecesse aquela situação, estava claro que ela tivera exatamente as mesmas sensações que ele. Aturdida, por um breve momento pensou em fugir, com medo daquele torpor insano e flamejante que tomava sua alma. Mas ao vê-lo caminhando em sua direção, nada mais pôde fazer; ela também estava entregue, completamente apaixonada por aquele estranho.
Assim, pé ante pé, encontraram-se no meio da praia. Pararam a um passo um do outro e contemplaram-se. Imensurável é o que se pode dizer do tempo decorrido neste longo e profundo olhar. Galáxias foram visitadas, universos inteiros descobertos; antigos mistérios desvendados e ensinamentos milenares apreendidos. As ondas batiam e faziam seus pés afundarem cada vez mais na areia fofa. Uma sensação de leveza tomou a ambos e sentiram-se completamente extasiados; naquele paraíso terreno, com os pés nus em contato com todo o universo, estavam perdidos na imensidão dos olhos do outro. Agarraram-se ali mesmo, num frêmito conjunto e extravagante. Beijavam-se com tamanho gosto que parecia não se verem há séculos, milênios, eras. Era um beijo doce, molhado, profano; suas línguas se encontravam nervosamente dentro das bocas, as mãos percorriam o outro com extrema perícia, como se cada um deles conhecesse cada ponto secreto do corpo do outro. O calor de fogo era insano, maldoso, sincero.
Largaram-se mutuamente após o longo e escandaloso beijo. Entreolharam-se: a perplexidade estava estampada na face de ambos. Procuraram palavras, mas estas não existiam naquele momento. Pareciam perdidos, como se acabassem de sofrer um acidente terrível e, em estado de choque, procurassem entender como saíram ilesos. Estavam atônitos, boquiabertos. Olhavam-se na inútil esperança de que algum deles pudesse explicar ao outro o que estava acontecendo. Não adiantava, nunca nenhum dos dois havia sentido tão estranha e poderosa sensação.
Finalmente, deixaram de tentar entender qualquer coisa. Ela o tomou nos braços e deu-lhe um beijo, desta vez calmo, profundo. Lentamente começou a desabotoar sua camisa, dando leves mordicadas em seu peito moreno. Ele tirou seu vestido calmamente e contemplou, ofuscado, a beleza de seus tenros e alvos seios: os mamilos enrijecidos, as auréolas arrepiadas; beijou-os. Desceu o olhar e desvendou sua barriga, a cavidade perfeita do umbigo, onde jaziam alguns poucos pelos loiríssimos. Suas coxas eram as mais belas que já havia visto: estavam arrepiadas, e rapidamente ajoelhou-se para beija-las. Passando a língua pela virilha sentiu o corpo dela estremecendo. Levantou e procurou sua boca: beijavam-se novamente com violência. Ela desabotoou suas calças e tomou nas mãos um membro rijo, quente, pulsante. Loucos de prazer, entregaram-se ali mesmo a um romance tórrido, tornando-se uma só pessoa num longo e inacreditável gozo.
Permaneceram juntos muito tempo depois daquele encontro maravilhoso. A cada dia seus corações tornavam-se mais unidos, suas personalidades se fundiam cada vez mais. Era como se somente eles existissem sobre a face da terra. Quando separados, o tempo passava lenta e dolorosamente; juntos, a eternidade parecia esgotar-se em minutos. Viam-se diariamente, falavam por horas ao telefone. Os amigos mais próximos viam aquela relação aparentemente doentia com estranheza, não conseguindo entender como duas pessoas poderiam se amar tanto sem desgastar o sentimento que nutriam um pelo outro. Claro que nessa estranheza jazia um pouco de inveja, afinal, não faziam parte de algo tão comovente quanto a relação deles.
E eis que sutilmente aquela paixão tremenda foi mostrando seu lado sombrio. Aquela relação estupenda e avassaladora em breve cobraria um preço altíssimo de um dos dois.
Uma angústia insuspeitada e febril vinha lhe tomando o peito todas as vezes que se encontrava com ela. Sabia que aquilo não tinha nada a ver com seu sentimento: continuava a amá-la cada dia mais intensamente. Era uma outra coisa, maldita e misteriosa, que acontecia com ele. Durante muito tempo conviveu como se nada o atormentasse. E conseguiu disfarçar sua tensão tão bem que ela mesma demorou a notar as diferenças sutis que logo tornariam-se gritantes.
A angústia provinha de uma dúvida cruel, que martelava em sua cabeça: até quando? Essas eram as palavras que davam origem a todo seu desconforto. Por mais que analisasse seus sentimentos, não conseguia encontrar algo mais profundo que aquelas duas singelas palavras. Tentou, de todas as formas, afastar aquela desconfiança boba de seu coração, mas já era tarde. A dúvida o havia dominado por completo. Todos os dias maravilhosos desde aquele espetacular encontro na costa começavam a pesar dentro dele. Sentia medo ao pensar que tudo poderia um dia cessar, que os sentimentos dela pudessem mudar, ou pior, que seus próprios sentimentos viessem um dia a findar. Não, não seria possível, amavam-se loucamente. E por que agora essa dúvida, esse medo descabido? Era só encontra-la, beija-la que o pavor de perde-la novamente o inundava.
Começou a evita-la. No começo, tudo parecia como uma crise comum, dessas que todo casal apaixonado passa ao menos uma vez. Em pouco tempo, ficou claro para ela que algo maior que uma simples crise estava começando a tomar forma. Tentou o diálogo, mas toda vez que se aproximava e tocava no assunto, ele esquiva-se com asco e acuado fugia. Com um forte medo de perde-lo, ela foi deixando de questiona-lo. Amava-o muito, e se para ficar ao seu lado tivesse de nunca mais dizer uma só palavra, assim o faria. A situação foi sendo arrastada a um ponto insuportável para ambos.
Foi então que a idéia subitamente arrebentou-lhe as idéias: mata-la. Sim, era óbvio. Se ela não poderia ser dele, não seria de mais ninguém. Mas em que estava pensando? Delirava? Que absurdo era aquele de tirar a vida da coisa mais preciosa de sua vida? A partir dali teriam início as longas caminhadas pela praça, as longas e extenuantes reflexões que dedicaria àquele tenebroso assunto, os eternos e dolorosos diálogos que manteria consigo mesmo a fim de encontrar uma solução para tão delicado impasse.
Inúteis eram todas e quaisquer investidas para tirar de sua mente a idéia fixa de mata-la. Por fim, a imagem da lâmina crua da faca rasgando o peito nu de sua amada era tudo o que conseguia vislumbrar.
Havia dois dias que não tinha notícias dele. Desde o primeiro beijo, não tinham conseguido passar mais que algumas horas longe um do outro, e agora aquele estranho sumiço. Claro que a relação já não estava como antes. Por algum motivo obscuro, os dias maravilhosos haviam transformado-se em martírios sem fim. Mesmo assim, a saudade era enorme e preferia ficar ao lado dele mesmo que não trocassem um olhar sequer durante todo o tempo que passassem juntos. Explodindo de ansiedade, resolveu procura-lo. Sentia que sua vida nunca mais faria sentido se não o visse naquele instante. Foi diretamente à praça. No caminho, tentou compreender o porquê de não tê-lo procurado antes. Talvez o medo de que algo terrível aconteceria assim que se vissem fosse a resposta. Era. Ouviu as oito badaladas do sino da igreja assim que atravessou a rua em direção à praça. Parou no meio dela, ao lado do coreto, e passou a olhar em volta na esperança de encontra-lo. Um canto escuro e afastado chamou-lhe a atenção: não conseguia ver o que ali havia, mas como que hipnotizada, dirigiu-se para lá. A alguns passos do obscuro local, parou. Imóvel, com um olhar ardente, mirava o amante diretamente em seus olhos. Quando ele saiu do esconderijo e postou-se diante dela, o mundo parou de girar: os pássaros estagnaram em pleno vôo, as nuvens deixaram de se mover e as árvores cessaram seus leves movimentos; nem mais o vento soprava. As pessoas desapareceram num piscar de olhos e todo o universo, exceto os dois amantes, congelou no tempo. O único som que ouviam era o bater acelerado de seus próprios corações. Uma lágrima delicadamente brotou e desceu pelo rosto dela; ele estremeceu e sentiu um calafrio mortal trespassando seu corpo. Sacou do bolso a adaga que há muito o acompanhava e a sentiu tremendo em suas mãos. Ao avistar seu reflexo pálido na lâmina fria da faca, ela caiu de joelhos e deixou rolar o pranto que há tempos lhe sufocava a garganta. Quando ela lhe estendeu os pulsos e fitou-o com um olhar cheio de compaixão e tristeza, ele também desabou em lágrimas. Percebeu, naquele momento, que ela sofrera exatamente as mesmas penas que ele durante todo aquele período de angústia interminável. Ela novamente lhe estendeu os pulsos. Com a mão trêmula, ele apertou o mais forte que pôde o cabo da adaga contra sua palma e com dois golpes certeiros, fez jorrar o sangue de sua amada. Ela deixou os braços caírem nas coxas e abaixou a cabeça, chorando um choro abafado e tênue. Ele, atordoado e desiludido, cortou os próprios pulsos deixando escapar de suas veias um sangue sofrido. Olharam-se pela última vez e um sorriso tímido brilhou no rosto de ambos. Abraçaram-se sentindo o sangue quente do amante escorrer pelas costas. Assim ficaram até que seus corações, compassados e em conjunto, deram a última e dolorosa batida, e seus corpos caíram ao chão. Imediatamente o mundo voltou a girar.
Nos últimos meses vinha tendo a estranha sensação de que apenas naquela praça seus angustiantes tormentos lhe davam alguma folga. Caminhava sempre durante o crepúsculo, sentava-se nalgum banco e distraía-se observando o balanço das árvores, ouvindo o canto dos últimos pássaros, escutando atentamente o delicioso uivo do vento passando por entre galhos, frestas e cantos tão singulares daquela belíssima praça.
Sentado ali, absorto, sentia que o verbo dava-lhe descanso. Durante todo o tempo que permanecia maravilhado com todas aquelas demonstrações singelas de efemeridade, conseguia esquecer completamente que em breve iria mata-la. Ela, a pessoa que ele mais amava, a mulher que o havia enfeitiçado, inebriado todos seus sentidos com sua beleza simples e poderosa, com sua presença fria e ao mesmo tempo aterradora, desconcertante. Dela, por debaixo de toda aquela postura austera e acanhada, emanava uma chama intensa como o fogo do inferno. Em seus olhos, ele via o ardor incandescente que brotava de dentro dela, a paixão devastadora que ela lhe guardava; em seus passos, contemplava a leveza daquele ser perfeito. Era sua musa, sua deusa, a imagem esmagadora presente em todos os seus pensamentos. Era ela a quem mataria.
A conheceu na praia, durante o inverno. Caminhava distraído, de pés descalços na areia, deixando pegadas despreocupadas na espuma das ondas. De repente, como se um raio lhe atingisse bem no meio do peito, teve a visão que a partir daquele momento nunca mais sairia de suas retinas: linda e compenetrada, ela caminhava, cabisbaixa, em sua direção, a uns trezentos passos de distância. Súbito seu coração começou a pulsar violentamente, sua vista escureceu, suas pernas bambearam e um calor intenso subiu por sua espinha. Sentiu-se bêbado, torto, estava completamente apaixonado por aquela misteriosa mulher que acabava de avistar. Parado, sem ação, acompanhou seus passos cada vez mais próximos. Quando o avistou, ela já se encontrava a uns cem passos dele e assustada, parou também. E ficaram assim, postados um na frente do outro, olhando-se diretamente nos olhos por um tempo incontável. Ela deu uma passo para trás e ele, um à frente. Ele deu outro passo e ela não se moveu. Naquele momento, sentiu seus pensamentos esvaindo, seu peito esvaziando. Não ouvia nada, não enxergava nada, apenas ela, era como se todo o mar, toda a areia e todo o céu deixassem de existir num piscar de olhos. Ela, apenas ela e nada mais. Deu mais um passo adiante, ela novamente não se moveu. Mais um passo e desta vez, ela deu outro, em sua direção. A alegria já não podia ser contida. Seus olhos brilharam, as mãos suaram e os pés tremeram; por dentro, como uma locomotiva desgovernada, seu coração parecia bater em todas as partes de seu corpo. Mais dois passos e ela repetiu o mesmo movimento. Agora já estava evidente. Por mais estranho que fosse, por incrível e absurda que parecesse aquela situação, estava claro que ela tivera exatamente as mesmas sensações que ele. Aturdida, por um breve momento pensou em fugir, com medo daquele torpor insano e flamejante que tomava sua alma. Mas ao vê-lo caminhando em sua direção, nada mais pôde fazer; ela também estava entregue, completamente apaixonada por aquele estranho.
Assim, pé ante pé, encontraram-se no meio da praia. Pararam a um passo um do outro e contemplaram-se. Imensurável é o que se pode dizer do tempo decorrido neste longo e profundo olhar. Galáxias foram visitadas, universos inteiros descobertos; antigos mistérios desvendados e ensinamentos milenares apreendidos. As ondas batiam e faziam seus pés afundarem cada vez mais na areia fofa. Uma sensação de leveza tomou a ambos e sentiram-se completamente extasiados; naquele paraíso terreno, com os pés nus em contato com todo o universo, estavam perdidos na imensidão dos olhos do outro. Agarraram-se ali mesmo, num frêmito conjunto e extravagante. Beijavam-se com tamanho gosto que parecia não se verem há séculos, milênios, eras. Era um beijo doce, molhado, profano; suas línguas se encontravam nervosamente dentro das bocas, as mãos percorriam o outro com extrema perícia, como se cada um deles conhecesse cada ponto secreto do corpo do outro. O calor de fogo era insano, maldoso, sincero.
Largaram-se mutuamente após o longo e escandaloso beijo. Entreolharam-se: a perplexidade estava estampada na face de ambos. Procuraram palavras, mas estas não existiam naquele momento. Pareciam perdidos, como se acabassem de sofrer um acidente terrível e, em estado de choque, procurassem entender como saíram ilesos. Estavam atônitos, boquiabertos. Olhavam-se na inútil esperança de que algum deles pudesse explicar ao outro o que estava acontecendo. Não adiantava, nunca nenhum dos dois havia sentido tão estranha e poderosa sensação.
Finalmente, deixaram de tentar entender qualquer coisa. Ela o tomou nos braços e deu-lhe um beijo, desta vez calmo, profundo. Lentamente começou a desabotoar sua camisa, dando leves mordicadas em seu peito moreno. Ele tirou seu vestido calmamente e contemplou, ofuscado, a beleza de seus tenros e alvos seios: os mamilos enrijecidos, as auréolas arrepiadas; beijou-os. Desceu o olhar e desvendou sua barriga, a cavidade perfeita do umbigo, onde jaziam alguns poucos pelos loiríssimos. Suas coxas eram as mais belas que já havia visto: estavam arrepiadas, e rapidamente ajoelhou-se para beija-las. Passando a língua pela virilha sentiu o corpo dela estremecendo. Levantou e procurou sua boca: beijavam-se novamente com violência. Ela desabotoou suas calças e tomou nas mãos um membro rijo, quente, pulsante. Loucos de prazer, entregaram-se ali mesmo a um romance tórrido, tornando-se uma só pessoa num longo e inacreditável gozo.
Permaneceram juntos muito tempo depois daquele encontro maravilhoso. A cada dia seus corações tornavam-se mais unidos, suas personalidades se fundiam cada vez mais. Era como se somente eles existissem sobre a face da terra. Quando separados, o tempo passava lenta e dolorosamente; juntos, a eternidade parecia esgotar-se em minutos. Viam-se diariamente, falavam por horas ao telefone. Os amigos mais próximos viam aquela relação aparentemente doentia com estranheza, não conseguindo entender como duas pessoas poderiam se amar tanto sem desgastar o sentimento que nutriam um pelo outro. Claro que nessa estranheza jazia um pouco de inveja, afinal, não faziam parte de algo tão comovente quanto a relação deles.
E eis que sutilmente aquela paixão tremenda foi mostrando seu lado sombrio. Aquela relação estupenda e avassaladora em breve cobraria um preço altíssimo de um dos dois.
Uma angústia insuspeitada e febril vinha lhe tomando o peito todas as vezes que se encontrava com ela. Sabia que aquilo não tinha nada a ver com seu sentimento: continuava a amá-la cada dia mais intensamente. Era uma outra coisa, maldita e misteriosa, que acontecia com ele. Durante muito tempo conviveu como se nada o atormentasse. E conseguiu disfarçar sua tensão tão bem que ela mesma demorou a notar as diferenças sutis que logo tornariam-se gritantes.
A angústia provinha de uma dúvida cruel, que martelava em sua cabeça: até quando? Essas eram as palavras que davam origem a todo seu desconforto. Por mais que analisasse seus sentimentos, não conseguia encontrar algo mais profundo que aquelas duas singelas palavras. Tentou, de todas as formas, afastar aquela desconfiança boba de seu coração, mas já era tarde. A dúvida o havia dominado por completo. Todos os dias maravilhosos desde aquele espetacular encontro na costa começavam a pesar dentro dele. Sentia medo ao pensar que tudo poderia um dia cessar, que os sentimentos dela pudessem mudar, ou pior, que seus próprios sentimentos viessem um dia a findar. Não, não seria possível, amavam-se loucamente. E por que agora essa dúvida, esse medo descabido? Era só encontra-la, beija-la que o pavor de perde-la novamente o inundava.
Começou a evita-la. No começo, tudo parecia como uma crise comum, dessas que todo casal apaixonado passa ao menos uma vez. Em pouco tempo, ficou claro para ela que algo maior que uma simples crise estava começando a tomar forma. Tentou o diálogo, mas toda vez que se aproximava e tocava no assunto, ele esquiva-se com asco e acuado fugia. Com um forte medo de perde-lo, ela foi deixando de questiona-lo. Amava-o muito, e se para ficar ao seu lado tivesse de nunca mais dizer uma só palavra, assim o faria. A situação foi sendo arrastada a um ponto insuportável para ambos.
Foi então que a idéia subitamente arrebentou-lhe as idéias: mata-la. Sim, era óbvio. Se ela não poderia ser dele, não seria de mais ninguém. Mas em que estava pensando? Delirava? Que absurdo era aquele de tirar a vida da coisa mais preciosa de sua vida? A partir dali teriam início as longas caminhadas pela praça, as longas e extenuantes reflexões que dedicaria àquele tenebroso assunto, os eternos e dolorosos diálogos que manteria consigo mesmo a fim de encontrar uma solução para tão delicado impasse.
Inúteis eram todas e quaisquer investidas para tirar de sua mente a idéia fixa de mata-la. Por fim, a imagem da lâmina crua da faca rasgando o peito nu de sua amada era tudo o que conseguia vislumbrar.
Havia dois dias que não tinha notícias dele. Desde o primeiro beijo, não tinham conseguido passar mais que algumas horas longe um do outro, e agora aquele estranho sumiço. Claro que a relação já não estava como antes. Por algum motivo obscuro, os dias maravilhosos haviam transformado-se em martírios sem fim. Mesmo assim, a saudade era enorme e preferia ficar ao lado dele mesmo que não trocassem um olhar sequer durante todo o tempo que passassem juntos. Explodindo de ansiedade, resolveu procura-lo. Sentia que sua vida nunca mais faria sentido se não o visse naquele instante. Foi diretamente à praça. No caminho, tentou compreender o porquê de não tê-lo procurado antes. Talvez o medo de que algo terrível aconteceria assim que se vissem fosse a resposta. Era. Ouviu as oito badaladas do sino da igreja assim que atravessou a rua em direção à praça. Parou no meio dela, ao lado do coreto, e passou a olhar em volta na esperança de encontra-lo. Um canto escuro e afastado chamou-lhe a atenção: não conseguia ver o que ali havia, mas como que hipnotizada, dirigiu-se para lá. A alguns passos do obscuro local, parou. Imóvel, com um olhar ardente, mirava o amante diretamente em seus olhos. Quando ele saiu do esconderijo e postou-se diante dela, o mundo parou de girar: os pássaros estagnaram em pleno vôo, as nuvens deixaram de se mover e as árvores cessaram seus leves movimentos; nem mais o vento soprava. As pessoas desapareceram num piscar de olhos e todo o universo, exceto os dois amantes, congelou no tempo. O único som que ouviam era o bater acelerado de seus próprios corações. Uma lágrima delicadamente brotou e desceu pelo rosto dela; ele estremeceu e sentiu um calafrio mortal trespassando seu corpo. Sacou do bolso a adaga que há muito o acompanhava e a sentiu tremendo em suas mãos. Ao avistar seu reflexo pálido na lâmina fria da faca, ela caiu de joelhos e deixou rolar o pranto que há tempos lhe sufocava a garganta. Quando ela lhe estendeu os pulsos e fitou-o com um olhar cheio de compaixão e tristeza, ele também desabou em lágrimas. Percebeu, naquele momento, que ela sofrera exatamente as mesmas penas que ele durante todo aquele período de angústia interminável. Ela novamente lhe estendeu os pulsos. Com a mão trêmula, ele apertou o mais forte que pôde o cabo da adaga contra sua palma e com dois golpes certeiros, fez jorrar o sangue de sua amada. Ela deixou os braços caírem nas coxas e abaixou a cabeça, chorando um choro abafado e tênue. Ele, atordoado e desiludido, cortou os próprios pulsos deixando escapar de suas veias um sangue sofrido. Olharam-se pela última vez e um sorriso tímido brilhou no rosto de ambos. Abraçaram-se sentindo o sangue quente do amante escorrer pelas costas. Assim ficaram até que seus corações, compassados e em conjunto, deram a última e dolorosa batida, e seus corpos caíram ao chão. Imediatamente o mundo voltou a girar.
cicatriz
Taciturno. Esse era o adjetivo que melhor lhe descrevia depois daquela noite de outono.
Havia voltado cabisbaixo, não falara com ninguém. Enfiara-se em seu quarto e lá permanecera por dois dias e duas noites.
Assustados e um tanto surpresos, os moradores - alguns deles o tinham em grande estima – não tiveram coragem de procura-lo; sequer bateram à sua porta. Ele, que vivera até então sempre falante, no meio de todos, o tipo de indivíduo cativante, mesmo aos olhos da mais sombria das criaturas, não mais era visto. Dormia durante o dia, esgueirava-se porta afora durante a noite. Voltava quando os primeiros raios de sol principiavam aparecer; em seu quarto, trancava-se até que a bruma espessa cobrisse a rua com uma sordidez pronta a acolher aqueles que teimam em permanecer anônimos.
Muito foi dito sobre sua conduta. Muitos ainda tentavam encontra-lo, conversar com ele; mas mesmo quando cruzava um conhecido e este lhe dirigia a palavra, lançava um olhar vazio, perturbador, e seguia seu caminho, incólume.
Assim como o tempo, também o interesse dos moradores naquele caso incomum passou. Após algumas semanas, não mais davam falta de sua presença, sequer lembravam das estórias divertidas contadas ao pé da escada, em volta da fogueira, sempre acompanhadas por suas gargalhadas estrondosas e seu sorriso enigmático. Quando, numa roda de conversa, alguém suscitava o assunto, logo outro se apressava em desconversar, introduzindo qualquer fato banal que era imediatamente discutido com exagero – afinal, seres humanos não costumam desperdiçar saliva com quem lhes vira as costas.
Tinha quatorze anos quando mudara para um vilarejo que logo se tornaria palco dos atos transformadores de sua vida.
Como toda criança, cedo tratou de conhecer todos os moradores. Passava a maior parte do dia praticando as mais diversas travessuras com as outras crianças e à noite, ao pé da escada, sentava-se perto do fogo para ouvir os mais velhos. Admirava os gestos e os brados daquelas pessoas ao mesmo tempo tão frívolas e interessantes, encantando-se com estórias fantásticas e causos duvidosos. Não tardou para que suas observações, embora pueris, fossem tomadas com respeito e algumas vezes até com certa admiração pelos principais articuladores das reuniões.
Passados alguns anos, era o centro das atenções nas rodas de conversa: suas estórias e suas risadas eram apreciadas por todos; e muito mais silenciosos e sisudos eram os encontros quando se ausentava por qualquer motivo.
Foi numa noite, após um belíssimo pôr do sol que só o brilho do outono pode propiciar, que resolveu dar um passeio antes de ir ter com os companheiros da fogueira. Caminhando em direção à ponte que levava à região mais erma do vilarejo, notou um prédio que até então não havia lhe chamado a atenção. Era um edifício pequeno, de uns quatro andares, e pelo que pôde calcular, deveria haver ali mais de cinqüenta apartamentos. O fato estranho era que de todas as janelas, apenas uma estava iluminada - pelo que parecia ser a chama de uma vela - como se naquele prédio houvesse apenas um apartamento ocupado. Até então, nunca caminhara por ali à noite, de modo que nunca passara por sua cabeça que aquele era um edifício quase completamente abandonado.
Com a curiosidade de adolescente aguçada, subitamente caminhou em direção à entrada do edifício, como se esta exercesse uma estranha atração. Subiu as escadas que levavam ao primeiro andar e caminhou pelo corredor interno examinando porta por porta - fez isso igualmente nos dois andares seguintes. Por fim, chegou à conclusão de que sua primeira avaliação estava correta: o prédio era habitado somente por quem havia acendido aquela vela, já que a janela iluminada situava-se no quarto andar e os apartamentos antes analisados encontravam-se desocupados.
Dirigiu-se rapidamente para o último andar, num misto de pavor e excitação. Como o corredor fosse escuro, pôde perceber uma luz advinda por debaixo da última porta do lado direito. Aproximando-se devagar, de uma certa distância, notou que a porta encontrava-se semicerrada. Pé ante pé parou defronte à entrada do apartamento, sentindo o bater do coração acelerado e a cadência dos pensamentos cada segundo mais veloz. Abrindo a porta da maneira mais delicada que pôde, adentrou o recinto.
Era um quarto de médio porte, escuro e abafado. Em seu interior havia poucos móveis: uma cama, um armário ao lado direito da porta e no canto oposto, um pequeno pedestal. Em cima do pedestal repousavam um pote de vidro e a vela que tanto instigara sua curiosidade. Na cama, estava deitado um homem nu, de uma pele tão alva que chegava a refletir os movimentos hipnóticos da chama da vela. Dentro do vidro, mergulhado em algum tipo de líquido, um coração humano muito bem conservado. Aproximando-se, notou que na parte inferior do pote havia uma etiqueta com um nome nela inscrito. Com uma naturalidade descabida perante aquela situação bizarra, aproximou-se da cama. O homem, apesar da pele muito pálida e do aspecto cadavérico acentuado por sua gritante magreza, possuía feições belíssimas. Caminhou em direção ao armário e, abrindo suas portas, a sensação de estranheza que ainda não havia surgido subitamente tomou-lhe de assalto: vislumbrava outros corações conservados naquele mesmo líquido. A única diferença visível entre estes e aquele do pedestal era os potes não conterem nenhum tipo de identificação. Os corações do armário não possuíam nomes.
Um grito, estridente e assustador, foi ouvido pelos moradores na fogueira. Assombrados, imediatamente começaram a correr na direção do estrondoso clamor. Um deles, tomando a liderança, disse que o grito vinha do prédio afastado que ficava perto da ponte. Por um breve momento, todos sentiram um calafrio na espinha e pensaram em parar; mas como o líder já se distanciava e parecia deveras destemido, voltaram a correr, seguindo seus passos. Rapidamente subiram as escadas do velho edifício até o quarto andar – todos sabiam que naquele prédio havia apenas um morador. Aglomeraram-se, atônitos, à porta do apartamento, pois nenhum deles teve coragem de entrar diante da cena horripilante que presenciavam. Dentro do quarto, uma menina ensangüentada, trêmula, chorando e soluçando a ponto de engasgar, segurava um pedaço de vidro em uma das mãos e na outra, um coração ainda quente e pulsante. No chão, entre cacos de vidro, havia um outro coração, frio e morto, ao lado de uma peça de madeira em cuja etiqueta lia-se Helena. Na cama, jazia o taciturno, morto, com o peito rasgado, coberto de sangue.
Foi um enterro magistral. Todos os moradores, emocionados, choraram ao lembrar do amigo há muito esquecido. A menina, ainda um pouco traumatizada e com as mãos enfaixadas, não compreendeu aquelas demonstrações de carinho, aparentemente excessivas, a alguém que haviam evitado durante tantos anos. E foi exatamente a ela, após o assassinato, que todos acabaram virando as costas. Os cortes nas mãos jamais cicatrizaram: morreu sozinha sem nunca matar outro homem.
Havia voltado cabisbaixo, não falara com ninguém. Enfiara-se em seu quarto e lá permanecera por dois dias e duas noites.
Assustados e um tanto surpresos, os moradores - alguns deles o tinham em grande estima – não tiveram coragem de procura-lo; sequer bateram à sua porta. Ele, que vivera até então sempre falante, no meio de todos, o tipo de indivíduo cativante, mesmo aos olhos da mais sombria das criaturas, não mais era visto. Dormia durante o dia, esgueirava-se porta afora durante a noite. Voltava quando os primeiros raios de sol principiavam aparecer; em seu quarto, trancava-se até que a bruma espessa cobrisse a rua com uma sordidez pronta a acolher aqueles que teimam em permanecer anônimos.
Muito foi dito sobre sua conduta. Muitos ainda tentavam encontra-lo, conversar com ele; mas mesmo quando cruzava um conhecido e este lhe dirigia a palavra, lançava um olhar vazio, perturbador, e seguia seu caminho, incólume.
Assim como o tempo, também o interesse dos moradores naquele caso incomum passou. Após algumas semanas, não mais davam falta de sua presença, sequer lembravam das estórias divertidas contadas ao pé da escada, em volta da fogueira, sempre acompanhadas por suas gargalhadas estrondosas e seu sorriso enigmático. Quando, numa roda de conversa, alguém suscitava o assunto, logo outro se apressava em desconversar, introduzindo qualquer fato banal que era imediatamente discutido com exagero – afinal, seres humanos não costumam desperdiçar saliva com quem lhes vira as costas.
Tinha quatorze anos quando mudara para um vilarejo que logo se tornaria palco dos atos transformadores de sua vida.
Como toda criança, cedo tratou de conhecer todos os moradores. Passava a maior parte do dia praticando as mais diversas travessuras com as outras crianças e à noite, ao pé da escada, sentava-se perto do fogo para ouvir os mais velhos. Admirava os gestos e os brados daquelas pessoas ao mesmo tempo tão frívolas e interessantes, encantando-se com estórias fantásticas e causos duvidosos. Não tardou para que suas observações, embora pueris, fossem tomadas com respeito e algumas vezes até com certa admiração pelos principais articuladores das reuniões.
Passados alguns anos, era o centro das atenções nas rodas de conversa: suas estórias e suas risadas eram apreciadas por todos; e muito mais silenciosos e sisudos eram os encontros quando se ausentava por qualquer motivo.
Foi numa noite, após um belíssimo pôr do sol que só o brilho do outono pode propiciar, que resolveu dar um passeio antes de ir ter com os companheiros da fogueira. Caminhando em direção à ponte que levava à região mais erma do vilarejo, notou um prédio que até então não havia lhe chamado a atenção. Era um edifício pequeno, de uns quatro andares, e pelo que pôde calcular, deveria haver ali mais de cinqüenta apartamentos. O fato estranho era que de todas as janelas, apenas uma estava iluminada - pelo que parecia ser a chama de uma vela - como se naquele prédio houvesse apenas um apartamento ocupado. Até então, nunca caminhara por ali à noite, de modo que nunca passara por sua cabeça que aquele era um edifício quase completamente abandonado.
Com a curiosidade de adolescente aguçada, subitamente caminhou em direção à entrada do edifício, como se esta exercesse uma estranha atração. Subiu as escadas que levavam ao primeiro andar e caminhou pelo corredor interno examinando porta por porta - fez isso igualmente nos dois andares seguintes. Por fim, chegou à conclusão de que sua primeira avaliação estava correta: o prédio era habitado somente por quem havia acendido aquela vela, já que a janela iluminada situava-se no quarto andar e os apartamentos antes analisados encontravam-se desocupados.
Dirigiu-se rapidamente para o último andar, num misto de pavor e excitação. Como o corredor fosse escuro, pôde perceber uma luz advinda por debaixo da última porta do lado direito. Aproximando-se devagar, de uma certa distância, notou que a porta encontrava-se semicerrada. Pé ante pé parou defronte à entrada do apartamento, sentindo o bater do coração acelerado e a cadência dos pensamentos cada segundo mais veloz. Abrindo a porta da maneira mais delicada que pôde, adentrou o recinto.
Era um quarto de médio porte, escuro e abafado. Em seu interior havia poucos móveis: uma cama, um armário ao lado direito da porta e no canto oposto, um pequeno pedestal. Em cima do pedestal repousavam um pote de vidro e a vela que tanto instigara sua curiosidade. Na cama, estava deitado um homem nu, de uma pele tão alva que chegava a refletir os movimentos hipnóticos da chama da vela. Dentro do vidro, mergulhado em algum tipo de líquido, um coração humano muito bem conservado. Aproximando-se, notou que na parte inferior do pote havia uma etiqueta com um nome nela inscrito. Com uma naturalidade descabida perante aquela situação bizarra, aproximou-se da cama. O homem, apesar da pele muito pálida e do aspecto cadavérico acentuado por sua gritante magreza, possuía feições belíssimas. Caminhou em direção ao armário e, abrindo suas portas, a sensação de estranheza que ainda não havia surgido subitamente tomou-lhe de assalto: vislumbrava outros corações conservados naquele mesmo líquido. A única diferença visível entre estes e aquele do pedestal era os potes não conterem nenhum tipo de identificação. Os corações do armário não possuíam nomes.
Um grito, estridente e assustador, foi ouvido pelos moradores na fogueira. Assombrados, imediatamente começaram a correr na direção do estrondoso clamor. Um deles, tomando a liderança, disse que o grito vinha do prédio afastado que ficava perto da ponte. Por um breve momento, todos sentiram um calafrio na espinha e pensaram em parar; mas como o líder já se distanciava e parecia deveras destemido, voltaram a correr, seguindo seus passos. Rapidamente subiram as escadas do velho edifício até o quarto andar – todos sabiam que naquele prédio havia apenas um morador. Aglomeraram-se, atônitos, à porta do apartamento, pois nenhum deles teve coragem de entrar diante da cena horripilante que presenciavam. Dentro do quarto, uma menina ensangüentada, trêmula, chorando e soluçando a ponto de engasgar, segurava um pedaço de vidro em uma das mãos e na outra, um coração ainda quente e pulsante. No chão, entre cacos de vidro, havia um outro coração, frio e morto, ao lado de uma peça de madeira em cuja etiqueta lia-se Helena. Na cama, jazia o taciturno, morto, com o peito rasgado, coberto de sangue.
Foi um enterro magistral. Todos os moradores, emocionados, choraram ao lembrar do amigo há muito esquecido. A menina, ainda um pouco traumatizada e com as mãos enfaixadas, não compreendeu aquelas demonstrações de carinho, aparentemente excessivas, a alguém que haviam evitado durante tantos anos. E foi exatamente a ela, após o assassinato, que todos acabaram virando as costas. Os cortes nas mãos jamais cicatrizaram: morreu sozinha sem nunca matar outro homem.
o dia do morto
Discutiu. Discursou solenemente sobre entes concebidos, fatos descabidos e atos distraídos. Quando optou, cansado, se calou.
E foi matar-se. Engraçado o fato de a morte tornar-se o grande atrativo de sua vida. Quando vivo, nada tinha de muito relevante a acrescentar.
Dirigiu-se à praia. Parou no meio do caminho, entre o mais longe e o mais curto. Pensou um pouco. Curioso o fato de pensar a beira da morte. Durante toda sua vida, o pensar fora sua grande prisão e agora que estava decidido, talvez pela primeira e última vez a agir sem pensar, pensava.
Pensou um pouco mais. Renegou os pensamentos de fraqueza, encheu os pulmões e resolveu que para entregar-se ao abismo, aguardaria um convite.
Morreria devagar. Ponderou: se era para morrer, que fosse em local agradável. Não demorou a escolher o lugar perfeito.
Foi pra casa: a morte não pedia pressa.
Demorou em percorrer os corredores minúsculos, divagar sobre objetos obtusos e vagar por cômodos obscuros. Despediu-se do leito como quem não cria vínculos.
Chegando ao portão, parou. Remexendo os bolsos, achou algumas poucas notas e as contou. Poderia seguir adiante: a morte não custava caro.
Chegou. Tomou um tempo justo para decidir o local exato da morte. Caminhou, olhou em volta. Deitou-se de frente à igreja, não por ser religioso, simplesmente a arquitetura o agradava. E sabia, comprovadamente, que se a morte durasse alguns dias a mais, poderia ver uma, duas, quem sabe três luas passarem.
Sentiu fome – a sede tornara-se passado.
Virou notícia deitado ali. Durante três dias, foi tomado por invisível, depois indigente, indesejável, intransigente, insano, intelectual, indescritível e por fim, inapto a viver. Deixaram-no morrer.
Muitos vieram vê-lo: conhecidos, anônimos, curiosos e homônimos. Alguns fanáticos tentavam seguir seus passos deitando ao seu lado e lá ficando, até que a fome ou as picadas de formigas os incomodassem tanto, que desistissem de morrer.
O vilarejo em que tudo aconteceu, anos depois, ainda era lembrado. E muitos, muitos anos depois, mitos, lendas e fábulas ainda jorravam de suas terras.
Fitava o céu, sempre. Dormia quando lhe convinha, abria os olhos ao despertar, fitava o céu e voltava a dormir, sem nunca mexer um músculo sequer. Permanecia inerte, mudo, quase surdo.
Definhava. Na primeira lua, já era praticamente pele e osso. E a morte passou a ser visível: a cada dia, hora ou – para os mais assíduos – minuto, notavam-se singelas mudanças em seu já deformado e pútrido corpo.
As beatas benziam-se, os bêbados, o respeitavam, mas eram as crianças quem mais pareciam compreender aquela morte estúpida. Davam vidas ao morto inventando estórias, espantavam os urubus, enfeitavam seu crânio com coroas de flores e espinhos. Ou simplesmente catarravam em seus ossos, rogando pragas e fazendo pilhérias.
Quando cresciam, esqueciam todas as vidas que o morto lhes dava e tentavam, em vão, entender o porquê do fascínio de seus filhos e netos por aqueles ossos velhos, fétidos e praticamente esquecidos.
Fizeram-no uma cerca e ergueram-lhe um busto, baseado em fotografias tiradas no início de sua jornada. Decretaram o dia do morto, feriado no vilarejo e ponto facultativo no restante do município. A escolha do dia – que simbolizaria o dia exato de sua morte - foi um tanto arbitrária, já que muitos acreditavam que, mesmo depois de passados dias sem ao menos uma piscadela, o morto continuava vivo. E quando finalmente virou pó, o morto deixou de ouvir.
E foi matar-se. Engraçado o fato de a morte tornar-se o grande atrativo de sua vida. Quando vivo, nada tinha de muito relevante a acrescentar.
Dirigiu-se à praia. Parou no meio do caminho, entre o mais longe e o mais curto. Pensou um pouco. Curioso o fato de pensar a beira da morte. Durante toda sua vida, o pensar fora sua grande prisão e agora que estava decidido, talvez pela primeira e última vez a agir sem pensar, pensava.
Pensou um pouco mais. Renegou os pensamentos de fraqueza, encheu os pulmões e resolveu que para entregar-se ao abismo, aguardaria um convite.
Morreria devagar. Ponderou: se era para morrer, que fosse em local agradável. Não demorou a escolher o lugar perfeito.
Foi pra casa: a morte não pedia pressa.
Demorou em percorrer os corredores minúsculos, divagar sobre objetos obtusos e vagar por cômodos obscuros. Despediu-se do leito como quem não cria vínculos.
Chegando ao portão, parou. Remexendo os bolsos, achou algumas poucas notas e as contou. Poderia seguir adiante: a morte não custava caro.
Chegou. Tomou um tempo justo para decidir o local exato da morte. Caminhou, olhou em volta. Deitou-se de frente à igreja, não por ser religioso, simplesmente a arquitetura o agradava. E sabia, comprovadamente, que se a morte durasse alguns dias a mais, poderia ver uma, duas, quem sabe três luas passarem.
Sentiu fome – a sede tornara-se passado.
Virou notícia deitado ali. Durante três dias, foi tomado por invisível, depois indigente, indesejável, intransigente, insano, intelectual, indescritível e por fim, inapto a viver. Deixaram-no morrer.
Muitos vieram vê-lo: conhecidos, anônimos, curiosos e homônimos. Alguns fanáticos tentavam seguir seus passos deitando ao seu lado e lá ficando, até que a fome ou as picadas de formigas os incomodassem tanto, que desistissem de morrer.
O vilarejo em que tudo aconteceu, anos depois, ainda era lembrado. E muitos, muitos anos depois, mitos, lendas e fábulas ainda jorravam de suas terras.
Fitava o céu, sempre. Dormia quando lhe convinha, abria os olhos ao despertar, fitava o céu e voltava a dormir, sem nunca mexer um músculo sequer. Permanecia inerte, mudo, quase surdo.
Definhava. Na primeira lua, já era praticamente pele e osso. E a morte passou a ser visível: a cada dia, hora ou – para os mais assíduos – minuto, notavam-se singelas mudanças em seu já deformado e pútrido corpo.
As beatas benziam-se, os bêbados, o respeitavam, mas eram as crianças quem mais pareciam compreender aquela morte estúpida. Davam vidas ao morto inventando estórias, espantavam os urubus, enfeitavam seu crânio com coroas de flores e espinhos. Ou simplesmente catarravam em seus ossos, rogando pragas e fazendo pilhérias.
Quando cresciam, esqueciam todas as vidas que o morto lhes dava e tentavam, em vão, entender o porquê do fascínio de seus filhos e netos por aqueles ossos velhos, fétidos e praticamente esquecidos.
Fizeram-no uma cerca e ergueram-lhe um busto, baseado em fotografias tiradas no início de sua jornada. Decretaram o dia do morto, feriado no vilarejo e ponto facultativo no restante do município. A escolha do dia – que simbolizaria o dia exato de sua morte - foi um tanto arbitrária, já que muitos acreditavam que, mesmo depois de passados dias sem ao menos uma piscadela, o morto continuava vivo. E quando finalmente virou pó, o morto deixou de ouvir.
do peixe ao vento
Sinto-me, como tu, reduzido em ser chamado sistema ou relógio. A vida realmente não é condensável assim. As cousas existem por serem cousas, e se possuem sentido íntimo, é porque aceito minha própria mentira.
Talvez esteja realmente surdo, e as sinfonias estão a tocar e a tocar, os astros a dançar e a dançar e meus barulhos a me entreter e desviar. Já não me é permitido sentir toda a harmonia celeste; meus umbigos tomaram conta de meus sentidos, a cegueira é inconteste.
As luzes, sim, as luzes. Estou apenas ofuscado pelas luzes; sobre as lâmpadas à minha volta a verdadeira luz me observa. E como se tivesse uma voz, pois minha essência humana lhe dá cordas vocais, pergunta por que meto-me eu bem debaixo das luzes, se estou sinceramente procurando vê-la. Faltam-me palavras e concordo quando ela me chama de hipócrita; as lâmpadas existiram sempre, eu é que insisto em cumprimenta-las.
Aceito então, pela escuridão - esse confortável torpor que ilude ao emprestar-me seus sentidos - continuo minha busca inútil. Vagando por países vazios e salas cheias de gente, pergunto-me se algum dia poderá a luz saber perdoar; eu que sempre acreditei ser-lhe fiel estou agora às apalpadelas procurando interruptores.
Mas, a esperança vem aos meus pulmões quando consigo respirar profundamente. Não é uma total falta de tato apenas o que me prejudica. Sei que se existirem deuses, são jogadores inveterados. Não teriam feito a vida surgir veloz para esvair-se em lentidão se não o fossem. Facilitariam minha vida, nascendo-me velho e matando-me no útero; poderia assim passear quando vivo, viver andando e correr para a morte.
O tempo é um andarilho controverso e enganador. Tento em vão acompanha-lo, pois sempre que me percebe por perto (ou finge que percebe, para deixar-me ao menos contente), piadista como é, esquiva-se. Aparece em forma de relâmpago e esconde-se na folha marrom do outono; forma-se longínquo como uma onda e quebra na praia e já é areia. Procuro entre os dedos dos pés, conto os planetas, contemplo as estrelas e desisto. Pois que quando menos espero, lá está ele, saltando e sorrindo para mim. Nos momentos em que menos quero vê-lo ele insiste em cativar, fitando-me com aquela onipotência jocosa de quem não precisa saber envelhecer.
Talvez seja a distância culpada por fazer o tempo despir-me; não há tempo que resista às suas investidas: por mais tempo que gaste, continuo cumprindo a metade da metade. Será justo tanto caminhar, apenas para encontrar utopias que me fazem mais caminhar? Eus machos e minhas fêmeas não temos respostas, pois estamos deveras ocupados desconstruindo meus machos e as fêmeas de eu mesmo.
Às drogas, dedico o papel de enzimas. Meu corpo é levado às enzimas e a elas concedo a chave das portas... se ao menos as fechaduras fossem modernas, daquelas em que se passa um cartão e luzes e sons desarmam as travas. Sinto que mesmo possuindo todas as chaves, encontrarei portas intransponíveis, dar-me-ei com passagens mais frias que o próprio gelo, sentirei angústias tão antigas quanto a própria carne.
Se o poeta estava certo, não sei dizer. Talvez a resposta esteja na mão esquerda da aurora, talvez não. Talvez o sonho seja o senhor dos meus delírios, talvez não. Talvez o talvez já não me baste; talvez sim. Talvez a vida seja isto mesmo, prosseguir perguntando sem almejar respostas; talvez não.
A dúvida me persegue, me transmite; transcende o ser dúvida: mantém-se a dúvida mesmo em momentos de dúvida. Nada mais propício: causa-lhe algum mal a interrogação?
Talvez esteja realmente surdo, e as sinfonias estão a tocar e a tocar, os astros a dançar e a dançar e meus barulhos a me entreter e desviar. Já não me é permitido sentir toda a harmonia celeste; meus umbigos tomaram conta de meus sentidos, a cegueira é inconteste.
As luzes, sim, as luzes. Estou apenas ofuscado pelas luzes; sobre as lâmpadas à minha volta a verdadeira luz me observa. E como se tivesse uma voz, pois minha essência humana lhe dá cordas vocais, pergunta por que meto-me eu bem debaixo das luzes, se estou sinceramente procurando vê-la. Faltam-me palavras e concordo quando ela me chama de hipócrita; as lâmpadas existiram sempre, eu é que insisto em cumprimenta-las.
Aceito então, pela escuridão - esse confortável torpor que ilude ao emprestar-me seus sentidos - continuo minha busca inútil. Vagando por países vazios e salas cheias de gente, pergunto-me se algum dia poderá a luz saber perdoar; eu que sempre acreditei ser-lhe fiel estou agora às apalpadelas procurando interruptores.
Mas, a esperança vem aos meus pulmões quando consigo respirar profundamente. Não é uma total falta de tato apenas o que me prejudica. Sei que se existirem deuses, são jogadores inveterados. Não teriam feito a vida surgir veloz para esvair-se em lentidão se não o fossem. Facilitariam minha vida, nascendo-me velho e matando-me no útero; poderia assim passear quando vivo, viver andando e correr para a morte.
O tempo é um andarilho controverso e enganador. Tento em vão acompanha-lo, pois sempre que me percebe por perto (ou finge que percebe, para deixar-me ao menos contente), piadista como é, esquiva-se. Aparece em forma de relâmpago e esconde-se na folha marrom do outono; forma-se longínquo como uma onda e quebra na praia e já é areia. Procuro entre os dedos dos pés, conto os planetas, contemplo as estrelas e desisto. Pois que quando menos espero, lá está ele, saltando e sorrindo para mim. Nos momentos em que menos quero vê-lo ele insiste em cativar, fitando-me com aquela onipotência jocosa de quem não precisa saber envelhecer.
Talvez seja a distância culpada por fazer o tempo despir-me; não há tempo que resista às suas investidas: por mais tempo que gaste, continuo cumprindo a metade da metade. Será justo tanto caminhar, apenas para encontrar utopias que me fazem mais caminhar? Eus machos e minhas fêmeas não temos respostas, pois estamos deveras ocupados desconstruindo meus machos e as fêmeas de eu mesmo.
Às drogas, dedico o papel de enzimas. Meu corpo é levado às enzimas e a elas concedo a chave das portas... se ao menos as fechaduras fossem modernas, daquelas em que se passa um cartão e luzes e sons desarmam as travas. Sinto que mesmo possuindo todas as chaves, encontrarei portas intransponíveis, dar-me-ei com passagens mais frias que o próprio gelo, sentirei angústias tão antigas quanto a própria carne.
Se o poeta estava certo, não sei dizer. Talvez a resposta esteja na mão esquerda da aurora, talvez não. Talvez o sonho seja o senhor dos meus delírios, talvez não. Talvez o talvez já não me baste; talvez sim. Talvez a vida seja isto mesmo, prosseguir perguntando sem almejar respostas; talvez não.
A dúvida me persegue, me transmite; transcende o ser dúvida: mantém-se a dúvida mesmo em momentos de dúvida. Nada mais propício: causa-lhe algum mal a interrogação?
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