Friday, February 22, 2008

portas

ela passou,
eu fiquei a esperar.
entrou numa porta vermelha
e muito tempo depois,
de lá saiu chorando;

ela passou,
eu fiquei a esperar.
entrou numa porta verde
e certo tempo depois,
de lá saiu confiante;

ela passou,
eu fiquei a esperar.
entrou numa porta amarela
e um bom tempo depois,
de lá saiu radiante;

ela passou,
eu fiquei a esperar.
entrou numa porta azul
e pouco tempo depois,
de lá saiu sorrindo;

ela passou,
não a fiz esperar.
pela minha porta entrou:
pensou, sorriu, irradiou minha vida e, chorando,
dela saiu correndo.

Thursday, February 21, 2008

pista

Quanto tempo depois, não sei dizer - se antes fosse diferente, duvido que tivesse alguma resposta. Seguíamos uma bela coreografia até que um dançou tango, o outro frevo. Os olhos não se desviavam nunca, mesmo bailando entre a delicadeza do mármore e a robustez de um macadame. Se a primeira nota saísse do tom, da segunda em diante éramos uníssonos; acaso a orquestra perdesse o ímpeto, compensávamos com passos cada vez mais ousados. Entre um tema e outro, percorríamos livremente.

Mas quando o ciúme nos tirou para uma valsa desconcertante, saímos de sintonia. Os instrumentistas, há tempos coadjuvantes, executavam solos magistrais e em vão tentávamos acompanhar suas melodias insinuantes. Nossos improvisos já não eram harmoniosos, e ainda que virtuoses fôssemos, outros arranjos não davam novas cores à nossa composição. Uma afinada parceria tornava-se dissonante, desgastada por egos tolos e desentendimentos fúteis.

O ciúme havia lançado sua flecha preta.

Mas reconheço que não deixamos sequer uma dança muda: fomos ao fim de cada pista, ouvimos o último fôlego de cada voz e vibramos a cada corda arrebentada; por várias vezes tivemos bis de um repertório poucas vezes repetido. Rompemos o silêncio de longas árias com cantos vigorosos e, exagerados, ovacionamos nossas próprias interpretações na esperança de um palco ainda fervoroso nos acolher. E ao fim de nossa apresentação, desafinamos uma última vez.

Hoje, sou só eu, só eu só, eu.

Friday, February 08, 2008

pouco

Sou o mediador das coisas.

Coisas simples não surtem efeito.
Espanto-me, claro, mas há tempos não há coisa que surpreenda:
a mulher que me ama,
o amigo que me ama,
a mãe, de cuja vida prescindiria pela minha, num átimo - coisas de mãe,
nem isso me tira do prumo.
Prumo de lastro raso, doído.

Deixar o cigarro na lacuna do cinzeiro dói:
dói sem causar surpresa.
Doer já não dói tanto -
aquela dor de caminhar, sabe?
O canto daquele um não traz amarguras;
do canto daquela outra já não sinto nada.

Quero outro mediador para as coisas da minha vida.

Quero encantar novamente
e novamente ser encantado.
Deslumbrar-me com pouco
e deslumbrar aos poucos com aquele pouco que era.
Quero ser pouco outra vez e do pouco ser outra vez muito.
Muitos.

Chega da mesmice de preto ou branco -
mesmo que o branco algumas vezes seja verde.
Poder gostar do rosa, e do verde;
poder gostar do preto e do branco.
Sem cinza.
E gostar também do cinza, mas como algo casual.
Gostar do casual, apreciar o acaso.
Cansar do entender tudo e entender nada - não ao nada.
Apreciar o nada sem tentar entendê-lo;
entender porra nenhuma e ainda ser, ainda estar,
permanecer.

Confortar quando preciso, estar presente quando assim me quiserem;
deixar de ser longe e deixar de lado o não.
Abrir os braços para o sim, deixá-lo viver sinceramente (mente).
Curtir um som, uma palavra;
curtir as duas: vida e morte.
Igualmente.

Deixar as coisas virem, irem, virem e irem, aleatoriamente,
até que ambas partes estejam satisfeitas.
Deixar.
Ir, vir, voltar, continuar;
continuar sem olhar para trás.
E olhar para trás, depois, com gosto, despreocupado.
Preocupar menos com o que não sei e ocupar–me cada vez mais.
Ocupar-me daquilo que sei - e daquilo que não sei também.

Fazer por fazer.

Ser, apenas.
Viver um pouco mais, deixar de casulos;
ver as pessoas, tê-las próximas.
Ver as pessoas, tê-las próximas -
e não as espantar apenas para espantar-me.
Não espantar as pessoas.
Ser o bem que tanto prego, e fazê-lo.
Ser do bem, para mim e para todos.

Ser todos possíveis.

Ouvir e admirar.
Admirar-me, crer em minhas próprias crenças.
Crer.
Ver e ser visto, deixar-me ver;
transparecer.
Brilhar sem ofuscar ou ser ofuscado -
entender o brilho, respeitar o ocaso necessário.

Ser sol.
Ser lua.
Vazante e maré, água doce e salgada;
ser terra e ar, fogo e água.
Compreender o que nos une e separa.
Respeitar o que nos repele, ponderar aquilo que nos ata.
Saber de deus, mas também do menino;
saber do homem e da mulher o porquê.
Colidir.
Desarrumar e arrumar, querer o caos e querer a ordem:
querer sempre mais.

Perguntar sobre aquilo que não sei, questionar tudo que sei.
Desafiar a todos, principalmente a mim mesmo.
Escancarar a vida, deixá-la fluir sem controle,
para retomar a rotina com entusiasmo de moleque.
Trabalhar muito, mas cobrar da vida o merecido descanso...
e acordar: hoje, amanhã e outro dia, para novamente pensar.

Pensar um mundo diferente, melhor.
Buscar uma vida melhor, sempre;
para eu, tu e ele;
para nós, vós e eles.

Sempre.