O bom curva não deixa o recinto antes do último curva: o bom curva, acompanha o último curva à padaria mais próxima, pede dois pães na chapa, um café e um toddy batido, pois o último curva, curvou.
O bom curva, chega tomando Brahma, vai embora tomando Brahma, dorme derrubando Brahma da latinha ou, em caso de curvisse extrema, segue orientação do curva penúltimo, mata o toddy batido em dois goles, entre um e outro engasga, escorrega o cotovelo no balcão e pede a saidera. O bom curva sempre pede a saidera.
O bom curva é honesto, mas mesmo sem recursos pede a terceira saidera e promete, à outro curva, que a curvisse do próximo dia – nos dai hoje – será paga por ele, o curva. O bom curva sempre paga a terceira saidera.
O bom curva não mede esforços ao curvar: esforça-se para não curvar mas, em respeito aos companheiros curvas, curva.
O bom curva pensa: medita e transcende pensando em como conseguir a próxima Brahma, pois seus companheiros, os curvas, esperam sedentos o reencontro com o caminho da embriaguez. O bom curva sempre pensa em seus companheiros curvas.
O bom curva não se preocupa em voltar. A ele interessa apenas chegar, de preferência, com uma meia dúzia de Brahma em mãos, pois sabe que enquanto houver gelo há esperança.
O bom curva é solidário: presta sempre serviços de carona ao companheiro curva desprovido. Após 17 tentativas, reconhece que a chave de seu Fiat nunca abrirá a porta de um Volkswagen e sai à procura de seu verdadeiro veículo; dá a partida, aperta o cinto, verifica se o companheiro curva está igualmente seguro e, após alguns totós, sai da vaga. Fecha um olho e segue o caminho do meio, pois curva que é curva, depois da curvisse, sempre enxerga três ruas.
O bom curva, depois de uma boa curvisse, não volta pra casa a mais de 40 km/h. O bom curva preserva sua integridade, bem como a de seus companheiros curvas.
O bom curva caminha, caminha e caminha em direção à brahma mais próxima, pois que sem combustível, um bom curva não curva.
O bom curva é íntegro, bebe apenas Brahma - pelo menos até a décima terceira garrafa. Depois disso, se outro curva lhe oferece Kaiser quente, em respeito ao curva, bebe, pois curva que é curva, curva.
O bom curva causa, mas atende aos pedidos dos companheiros curvas para pegar leve quando, em cima da mesa, com a camisa em uma das mãos e uma garrafa respingante na outra, grita para a Sibéria ouvir que o time do bragantino de 72 tinha o melhor ataque que ele já viu jogar, mesmo tendo nascido em 79. O bom curva respeita a opinião de seus companheiros curvas...
(Manifesto inacabado por motivos de curvisse maior)
Wednesday, December 20, 2006
vida
em que consiste minha vida? seria melhor perguntar: a que me agarro? não, a grande procura não é a fuga da morte, como muitos dos viventes gostariam de julgar; a pergunta realmente é de que consiste minha vida: quais substâncias me contém? quais partes interagem para fazer da vida, minha? será uma destas porções aquele que diz a vida deve consumir-se rapidamente? que somente na velocidade se tem a real proporção da velocidade das coisas? ou numa dessas frações estará aquela que um dia disse ser a vida algo de que se desfruta com toda a calma do mundo? aquela que de frase em frase dizia possuir o tempo do mundo? será uma dessas pessoas portadora de qualquer tipo de razão? aquele um parou na rua e com minha mão fugidia disse ser meu pai, o pai que há tempos foi-se. será que este senhor, louco, veio dizer que o tempo, assim como ele, apresenta-se com cara de louco? que o tempo zomba daqueles uns tais que como eu correm correm correm, loucos para alcançar um tempo que corre corre corre, e que ambos, tendo ou não tempo, loucos, nunca alcançarão nada? será que a vida segue quando fecho meus olhos, e durmo? procrio e garanto meu sangue numa terra um dia minha, porém basta um sábado a contra gosto para os filhos de meus filhos terem estórias suficientemente escabrosas para maldizerem meu nome por gerações: o criador passado e o ser maldito. tens um fim, meu filho: nessa vossa visão limitada, tudo tem fim. e o nada, tem um começo? donde vem esse tudo do qual enches a boca pra falar? se te mostras anjo, pai, é porque conheces bem a aparência do demônio. então não venha, meu caro, com suas filosofias de subúrbio, esperando que eu creia e tema. sigo a estrada sem ao menos vê-la, e cruzarei pontes pelo simples prazer de não tê-las sob os pés. das crenças e dos temores do mundo, basta-me a vida, que põe à prova quaisquer princípios e valores. valho meu peso e peso com cuidado as cargas deixadas pelo caminho, pois se me apresentarem balanças, saberei flutuar.
filho
filho, a você não posso dar mais do que clichês: o clichê de dizer tudo quanto fosse, tempo fosse, tudo, te daria. mais uma vida tivesse, passaria ao teu lado; e teus olhos tímidos. no medo, daria-te calma; na fuga, daria-te ombro; no fim, um qualquer início. nas lágrimas, mais palmadas. que pra teu arredio, mesmo no meu pior, um colo tinha. da imaginação distante, o nada toma vida: as cores são cores, os erros, eu perdôo; se apenas ao teu lado. morto, com lembrança do pai que não pôde. filho, meus braços não te alcançam, tampouco as palavras de ordem têm efeito e, ainda assim, quero ver-me em ti. do lado de cá, longe, impotente, vejo tua vida indo atrás do meu caminho, onde orgulho e pesar se misturam quando, com teus pés, viro menino e afundo os passos com alegria em pegadas um dia pisadas com cautela. e por quê agora terias cautela? filho, a verdade é que hoje meus passos não deixam mais pegadas. meu traço acabou-se no fim de uma linha tênue, linha que segui sozinho com medo de que você se machucasse - se antes soubesse o que sei agora! filho, fui embora antes que pudesse te olhar de homem pra homem, e hoje você é mais homem do que todos os homens que eu poderia ter sido. orgulho de fazer parte, pesar, por não fazer mais parte. hoje, as pegadas são apenas tuas. e deixo-te, feliz.
Friday, October 20, 2006
borda
hoje os países continuam vazios e nas salas, outrora repletas de gente, o movimento não é mais tão intenso: a maioria foi aos parapeitos que transbordam sangue. minha sede é de sangue, mas o que impede de atirar-me? quem detém os fios que me atam e por que impedem de jogar com calma? a borda está logo ali, a vejo, sinto com a ponta dos pés. ponho-me paralelo ao chão e ganchos enterrados no fundo da pele interrompem a queda. livre. a pele estica, estica e os fios deixam-me com o cheiro do asfalto perto mas, antes que possa sentir o real sabor do pixe, puxam-me de volta aos países vazios e às salas, as salas, salas... nunca estive tão perto do fundo e agora estou perto do nada, novamente. onde coloquei minhas facas? possuía tantas e era hábil no uso de várias; onde diabos foram parar minhas facas? ontem seria preciso apenas um golpe - de baixo pra cima, como mandam os manuais. mas não hoje, hoje não. ainda que frágeis, não há mais facas para cortar os fios. e à beira de um tal incerto, escorregadio e estático, visita-me o amanhã trazendo flores e um canivete. sem muita demora desculpou-se pelo parco presente, pôs-me confortável ao dizer que voltaria amanhã e foi-se. com as flores próximas ao peito, empunhei a lâmina com a experiência que o ontem trouxera e dos fios me desfiz: o vento, a velocidade, a queda. livre. quanto mais perto do chão chegava, mais longe dele ficava. até que abriu-se
Thursday, July 20, 2006
baden
Outro dia estive com Baden: tomava uma boa gelada com ele, na casa dele. Eram eu e mais tantos - convidados de Baden. Os tantos foram à praia, eu fiquei e ouvi. Ele disse - as cordas do violão soavam como cordas vocais: o sol lá fora fala para muitos; para os poucos, a sombra minha que é a sombra tua fala: segue teu instinto, garoto. E pela minha cabeça passaram berimbaus, Iemanjás, Ossanhas e mais alguns cantos. Não fui a canto algum.
E muitos o visitaram naquela mesma noite - alguns tinham muito a dizer, outros muito a ouvir. Com um dedilhar preciso, uma levada cautelosamente tempestuosa e uma voz rouca, quase inaudível, Baden fez todos desaparecer. Restaram eu e Baden. Mesmo que estranho pareça, acomodou seu violão numa parede próxima que logo deixou de existir. Olhou para mim com olhos rasos - suas mãos, desacostumadas, procuraram repouso. Finalmente calmo, mãos de dedos sérios e delírios controlados disse: este é um encontro inusitado e se procuras resposta ou caminho apontado, digo logo que de mim terás pouco ou quase nenhum resultado. Perguntei, então: por que disseste antes, que da sombra que era tua - me pareceu fado - e era também minha, uma porta por instinto se abriria e, quase que por acaso, salvo eu seria? Garoto, disse Baden, lá atrás, em teu caminho conturbado, uma imagem minha tu criaste, inebriado. Digo apenas: volta. Vai até a tua borda e questiona: que vantagens a palavra de um morto te traria?
E muitos o visitaram naquela mesma noite - alguns tinham muito a dizer, outros muito a ouvir. Com um dedilhar preciso, uma levada cautelosamente tempestuosa e uma voz rouca, quase inaudível, Baden fez todos desaparecer. Restaram eu e Baden. Mesmo que estranho pareça, acomodou seu violão numa parede próxima que logo deixou de existir. Olhou para mim com olhos rasos - suas mãos, desacostumadas, procuraram repouso. Finalmente calmo, mãos de dedos sérios e delírios controlados disse: este é um encontro inusitado e se procuras resposta ou caminho apontado, digo logo que de mim terás pouco ou quase nenhum resultado. Perguntei, então: por que disseste antes, que da sombra que era tua - me pareceu fado - e era também minha, uma porta por instinto se abriria e, quase que por acaso, salvo eu seria? Garoto, disse Baden, lá atrás, em teu caminho conturbado, uma imagem minha tu criaste, inebriado. Digo apenas: volta. Vai até a tua borda e questiona: que vantagens a palavra de um morto te traria?
Monday, February 06, 2006
ela disse
Ela disse que queria morrer e eu realmente não via problema algum em realizar seu desejo. No bar, depois de algumas cervejas e uma caipirinha amarga e forte, não porque errara o garçom e sim por gosto da cliente, tinha dito que não fazia um ano perdera, de uma só vez, o pai e o irmão, ambos muito queridos. O filho de nove anos, que sobrevivera milagrosamente ao fatídico acidente de automóvel que ceifara “duas das melhores almas deste mundo”, parecia agora um peso a carregar, uma culpa viva; por mais que tentasse, disse-me ela, não conseguia seguir em frente, e os desejos de matar e morrer confundiam-na todas as vezes que encarava de frente o pequeno. Pois bem, disse, vamos acabar de uma vez com esse sofrimento sua vaca psicótica. Paguei a conta, a dela inclusive, e nos encaminhamos à praça que jazia a não mais que alguns passos dali: a jogaria na frente do primeiro ônibus que passasse. Larguei minha maleta ao lado de um banco e tomei sua bolsa e a coloquei ao lado da minha maleta. Ela, já bêbada e uma pouco tonta, interpretou aquela movimentação com certa volúpia e se atirou em meus braços, tentando beijar uma boca que desviava a cada tentativa. Agarrei-a e comecei a levá-la para o limiar da calçada. Minha bolsa, disse ela. Por que se preocupar com sua bolsa se em pouco tempo estará morta? Em resposta à sua cara de espanto disse: não viemos aqui para trepar piranha; viemos aqui pois vou esmagar essa sua carinha de puta no primeiro pára-brisa do primeiro ônibus que passar. O quê?, gritou a safada, me larga seu louco, me larga senão eu vou começar a berrar e a polícia vai chegar e… Fica calma meu bem, a poliícia já está aqui, e ao mostrar meu distintivo, lágrimas negras, borradas de rímel lentamente rolaram por um rosto assustado e pálido. Seu corpo amoleceu, seus músculos cessaram o desvencilhar e deixou-se cair. Segurei-a com força e olhei para a rua: um ônibus aproximava-se, não demoraria agora mais do que um minuto para que a vadia fosse ter com seus entes queridos em alguma parte do espectro, no céu, no inferno ou na puta que pariu. Olhou-me com olhos rasos e tristes e, gemendo, balbuciou alguma coisa sobre seu filho: Bruno… Se realmente ama teu filho, por que essa fixação em morrer, perguntei. Não tenho forças, disse-me, mas sei que não posso deixá-lo, devo viver para ver meu filho crescer e se tornar um homem, por favor, não me mate. Uma certa ternura brotou de dentro dela e acalorou-me. Abracei-a, dei-lhe uma beijo na testa e com um só movimento certeiro seu corpo esmigalhou-se na frente do Circular 8369 que passava. Vidros estilhaçados, gritaria e sangue, muito sangue. Ao deixar a cena do crime, uma palavra passou pela minha cabeça: fraca.
Thursday, January 05, 2006
cacos
Numa esquina a vi e realmente não lembro qual copo espatifou-se: foi minha mão trêmula que fez do vidro areia ao vê-la ou, quando olhou-me, de súbito seus músculos lembraram da fadiga que experimentavam das vezes que se deitava comigo, só comigo? Houve de fato alguma perda ao dono do bar? Certeza tenho é que ela estava acompanhada e eu queria estar: desejei seu olhar percorrendo o corpo de qualquer estranha, um ciúme barato, inveja calculada daquelas dissimuladas em telenovelas. Com ou sem cacos a situação virou martírio e eu inflava o peito toda vez que se atirava nos braços dum estranho que agora media. Dentro da minha cabeça seu cheiro confundia-se com o sabor do vinho e algo me dizia que de seu ventre vazava uma tesão, quase uma raiva doce, sanada apenas por uma erupção violenta longe dali, isolados, sozinhos num mundo sem deuses e sem demônios olhos ou ouvidos, pois assim éramos puros, um dia fomos, imbatíveis, senhor senhora de qualquer tempo, donos incontestes de todas as vidas que inventávamos enquanto eu ditava o ritmo das marés e ela decidia se hoje a lua estaria cheia ou minguante. Parceiros infernais separados por sete garrafas quase vazias, três porções de polenta ou lula à dorê inacabadas, falsas risadas e conversas banalizadas; duas mesas de um espaço intransponível e num banheiro encontrado a vinte e nove passos de distância. Ao que os olhos se encontraram não ousamos tocar sequer um centímetro de pele e permanecemos imóveis perdidos na vastidão das angústias que se somavam. A porta de ferro cerrou, os bêbados calaram-se, as paredes ruíram e o vento tratou de levar consigo o pó que teimou em restar. Surdos mudos e inertes, esquecidos de garçons, teatro ou ano novo, demoraram-se a jorrar as lágrimas daquele amor decididamente interrompido.
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