Monday, February 06, 2006
ela disse
Ela disse que queria morrer e eu realmente não via problema algum em realizar seu desejo. No bar, depois de algumas cervejas e uma caipirinha amarga e forte, não porque errara o garçom e sim por gosto da cliente, tinha dito que não fazia um ano perdera, de uma só vez, o pai e o irmão, ambos muito queridos. O filho de nove anos, que sobrevivera milagrosamente ao fatídico acidente de automóvel que ceifara “duas das melhores almas deste mundo”, parecia agora um peso a carregar, uma culpa viva; por mais que tentasse, disse-me ela, não conseguia seguir em frente, e os desejos de matar e morrer confundiam-na todas as vezes que encarava de frente o pequeno. Pois bem, disse, vamos acabar de uma vez com esse sofrimento sua vaca psicótica. Paguei a conta, a dela inclusive, e nos encaminhamos à praça que jazia a não mais que alguns passos dali: a jogaria na frente do primeiro ônibus que passasse. Larguei minha maleta ao lado de um banco e tomei sua bolsa e a coloquei ao lado da minha maleta. Ela, já bêbada e uma pouco tonta, interpretou aquela movimentação com certa volúpia e se atirou em meus braços, tentando beijar uma boca que desviava a cada tentativa. Agarrei-a e comecei a levá-la para o limiar da calçada. Minha bolsa, disse ela. Por que se preocupar com sua bolsa se em pouco tempo estará morta? Em resposta à sua cara de espanto disse: não viemos aqui para trepar piranha; viemos aqui pois vou esmagar essa sua carinha de puta no primeiro pára-brisa do primeiro ônibus que passar. O quê?, gritou a safada, me larga seu louco, me larga senão eu vou começar a berrar e a polícia vai chegar e… Fica calma meu bem, a poliícia já está aqui, e ao mostrar meu distintivo, lágrimas negras, borradas de rímel lentamente rolaram por um rosto assustado e pálido. Seu corpo amoleceu, seus músculos cessaram o desvencilhar e deixou-se cair. Segurei-a com força e olhei para a rua: um ônibus aproximava-se, não demoraria agora mais do que um minuto para que a vadia fosse ter com seus entes queridos em alguma parte do espectro, no céu, no inferno ou na puta que pariu. Olhou-me com olhos rasos e tristes e, gemendo, balbuciou alguma coisa sobre seu filho: Bruno… Se realmente ama teu filho, por que essa fixação em morrer, perguntei. Não tenho forças, disse-me, mas sei que não posso deixá-lo, devo viver para ver meu filho crescer e se tornar um homem, por favor, não me mate. Uma certa ternura brotou de dentro dela e acalorou-me. Abracei-a, dei-lhe uma beijo na testa e com um só movimento certeiro seu corpo esmigalhou-se na frente do Circular 8369 que passava. Vidros estilhaçados, gritaria e sangue, muito sangue. Ao deixar a cena do crime, uma palavra passou pela minha cabeça: fraca.
Subscribe to:
Post Comments (Atom)
No comments:
Post a Comment