Outro dia estive com Baden: tomava uma boa gelada com ele, na casa dele. Eram eu e mais tantos - convidados de Baden. Os tantos foram à praia, eu fiquei e ouvi. Ele disse - as cordas do violão soavam como cordas vocais: o sol lá fora fala para muitos; para os poucos, a sombra minha que é a sombra tua fala: segue teu instinto, garoto. E pela minha cabeça passaram berimbaus, Iemanjás, Ossanhas e mais alguns cantos. Não fui a canto algum.
E muitos o visitaram naquela mesma noite - alguns tinham muito a dizer, outros muito a ouvir. Com um dedilhar preciso, uma levada cautelosamente tempestuosa e uma voz rouca, quase inaudível, Baden fez todos desaparecer. Restaram eu e Baden. Mesmo que estranho pareça, acomodou seu violão numa parede próxima que logo deixou de existir. Olhou para mim com olhos rasos - suas mãos, desacostumadas, procuraram repouso. Finalmente calmo, mãos de dedos sérios e delírios controlados disse: este é um encontro inusitado e se procuras resposta ou caminho apontado, digo logo que de mim terás pouco ou quase nenhum resultado. Perguntei, então: por que disseste antes, que da sombra que era tua - me pareceu fado - e era também minha, uma porta por instinto se abriria e, quase que por acaso, salvo eu seria? Garoto, disse Baden, lá atrás, em teu caminho conturbado, uma imagem minha tu criaste, inebriado. Digo apenas: volta. Vai até a tua borda e questiona: que vantagens a palavra de um morto te traria?
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