Thursday, February 21, 2008

pista

Quanto tempo depois, não sei dizer - se antes fosse diferente, duvido que tivesse alguma resposta. Seguíamos uma bela coreografia até que um dançou tango, o outro frevo. Os olhos não se desviavam nunca, mesmo bailando entre a delicadeza do mármore e a robustez de um macadame. Se a primeira nota saísse do tom, da segunda em diante éramos uníssonos; acaso a orquestra perdesse o ímpeto, compensávamos com passos cada vez mais ousados. Entre um tema e outro, percorríamos livremente.

Mas quando o ciúme nos tirou para uma valsa desconcertante, saímos de sintonia. Os instrumentistas, há tempos coadjuvantes, executavam solos magistrais e em vão tentávamos acompanhar suas melodias insinuantes. Nossos improvisos já não eram harmoniosos, e ainda que virtuoses fôssemos, outros arranjos não davam novas cores à nossa composição. Uma afinada parceria tornava-se dissonante, desgastada por egos tolos e desentendimentos fúteis.

O ciúme havia lançado sua flecha preta.

Mas reconheço que não deixamos sequer uma dança muda: fomos ao fim de cada pista, ouvimos o último fôlego de cada voz e vibramos a cada corda arrebentada; por várias vezes tivemos bis de um repertório poucas vezes repetido. Rompemos o silêncio de longas árias com cantos vigorosos e, exagerados, ovacionamos nossas próprias interpretações na esperança de um palco ainda fervoroso nos acolher. E ao fim de nossa apresentação, desafinamos uma última vez.

Hoje, sou só eu, só eu só, eu.

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