Sou o mediador das coisas.
Coisas simples não surtem efeito.
Espanto-me, claro, mas há tempos não há coisa que surpreenda:
a mulher que me ama,
o amigo que me ama,
a mãe, de cuja vida prescindiria pela minha, num átimo - coisas de mãe,
nem isso me tira do prumo.
Prumo de lastro raso, doído.
Deixar o cigarro na lacuna do cinzeiro dói:
dói sem causar surpresa.
Doer já não dói tanto -
aquela dor de caminhar, sabe?
O canto daquele um não traz amarguras;
do canto daquela outra já não sinto nada.
Quero outro mediador para as coisas da minha vida.
Quero encantar novamente
e novamente ser encantado.
Deslumbrar-me com pouco
e deslumbrar aos poucos com aquele pouco que era.
Quero ser pouco outra vez e do pouco ser outra vez muito.
Muitos.
Chega da mesmice de preto ou branco -
mesmo que o branco algumas vezes seja verde.
Poder gostar do rosa, e do verde;
poder gostar do preto e do branco.
Sem cinza.
E gostar também do cinza, mas como algo casual.
Gostar do casual, apreciar o acaso.
Cansar do entender tudo e entender nada - não ao nada.
Apreciar o nada sem tentar entendê-lo;
entender porra nenhuma e ainda ser, ainda estar,
permanecer.
Confortar quando preciso, estar presente quando assim me quiserem;
deixar de ser longe e deixar de lado o não.
Abrir os braços para o sim, deixá-lo viver sinceramente (mente).
Curtir um som, uma palavra;
curtir as duas: vida e morte.
Igualmente.
Deixar as coisas virem, irem, virem e irem, aleatoriamente,
até que ambas partes estejam satisfeitas.
Deixar.
Ir, vir, voltar, continuar;
continuar sem olhar para trás.
E olhar para trás, depois, com gosto, despreocupado.
Preocupar menos com o que não sei e ocupar–me cada vez mais.
Ocupar-me daquilo que sei - e daquilo que não sei também.
Fazer por fazer.
Ser, apenas.
Viver um pouco mais, deixar de casulos;
ver as pessoas, tê-las próximas.
Ver as pessoas, tê-las próximas -
e não as espantar apenas para espantar-me.
Não espantar as pessoas.
Ser o bem que tanto prego, e fazê-lo.
Ser do bem, para mim e para todos.
Ser todos possíveis.
Ouvir e admirar.
Admirar-me, crer em minhas próprias crenças.
Crer.
Ver e ser visto, deixar-me ver;
transparecer.
Brilhar sem ofuscar ou ser ofuscado -
entender o brilho, respeitar o ocaso necessário.
Ser sol.
Ser lua.
Vazante e maré, água doce e salgada;
ser terra e ar, fogo e água.
Compreender o que nos une e separa.
Respeitar o que nos repele, ponderar aquilo que nos ata.
Saber de deus, mas também do menino;
saber do homem e da mulher o porquê.
Colidir.
Desarrumar e arrumar, querer o caos e querer a ordem:
querer sempre mais.
Perguntar sobre aquilo que não sei, questionar tudo que sei.
Desafiar a todos, principalmente a mim mesmo.
Escancarar a vida, deixá-la fluir sem controle,
para retomar a rotina com entusiasmo de moleque.
Trabalhar muito, mas cobrar da vida o merecido descanso...
e acordar: hoje, amanhã e outro dia, para novamente pensar.
Pensar um mundo diferente, melhor.
Buscar uma vida melhor, sempre;
para eu, tu e ele;
para nós, vós e eles.
Sempre.
No comments:
Post a Comment