Friday, October 20, 2006
borda
hoje os países continuam vazios e nas salas, outrora repletas de gente, o movimento não é mais tão intenso: a maioria foi aos parapeitos que transbordam sangue. minha sede é de sangue, mas o que impede de atirar-me? quem detém os fios que me atam e por que impedem de jogar com calma? a borda está logo ali, a vejo, sinto com a ponta dos pés. ponho-me paralelo ao chão e ganchos enterrados no fundo da pele interrompem a queda. livre. a pele estica, estica e os fios deixam-me com o cheiro do asfalto perto mas, antes que possa sentir o real sabor do pixe, puxam-me de volta aos países vazios e às salas, as salas, salas... nunca estive tão perto do fundo e agora estou perto do nada, novamente. onde coloquei minhas facas? possuía tantas e era hábil no uso de várias; onde diabos foram parar minhas facas? ontem seria preciso apenas um golpe - de baixo pra cima, como mandam os manuais. mas não hoje, hoje não. ainda que frágeis, não há mais facas para cortar os fios. e à beira de um tal incerto, escorregadio e estático, visita-me o amanhã trazendo flores e um canivete. sem muita demora desculpou-se pelo parco presente, pôs-me confortável ao dizer que voltaria amanhã e foi-se. com as flores próximas ao peito, empunhei a lâmina com a experiência que o ontem trouxera e dos fios me desfiz: o vento, a velocidade, a queda. livre. quanto mais perto do chão chegava, mais longe dele ficava. até que abriu-se
Subscribe to:
Post Comments (Atom)
No comments:
Post a Comment