Quando o grande relógio batesse sete horas, e o sino da torre soasse suas já ensurdecedoras sete badaladas, fariam exatamente dois dias que encontrava-se ali. Aquele canto da praça, observado com extrema cautela durante meses, era o esconderijo perfeito: escuro, esquecido e evitado por todas as pessoas.
Nos últimos meses vinha tendo a estranha sensação de que apenas naquela praça seus angustiantes tormentos lhe davam alguma folga. Caminhava sempre durante o crepúsculo, sentava-se nalgum banco e distraía-se observando o balanço das árvores, ouvindo o canto dos últimos pássaros, escutando atentamente o delicioso uivo do vento passando por entre galhos, frestas e cantos tão singulares daquela belíssima praça.
Sentado ali, absorto, sentia que o verbo dava-lhe descanso. Durante todo o tempo que permanecia maravilhado com todas aquelas demonstrações singelas de efemeridade, conseguia esquecer completamente que em breve iria mata-la. Ela, a pessoa que ele mais amava, a mulher que o havia enfeitiçado, inebriado todos seus sentidos com sua beleza simples e poderosa, com sua presença fria e ao mesmo tempo aterradora, desconcertante. Dela, por debaixo de toda aquela postura austera e acanhada, emanava uma chama intensa como o fogo do inferno. Em seus olhos, ele via o ardor incandescente que brotava de dentro dela, a paixão devastadora que ela lhe guardava; em seus passos, contemplava a leveza daquele ser perfeito. Era sua musa, sua deusa, a imagem esmagadora presente em todos os seus pensamentos. Era ela a quem mataria.
A conheceu na praia, durante o inverno. Caminhava distraído, de pés descalços na areia, deixando pegadas despreocupadas na espuma das ondas. De repente, como se um raio lhe atingisse bem no meio do peito, teve a visão que a partir daquele momento nunca mais sairia de suas retinas: linda e compenetrada, ela caminhava, cabisbaixa, em sua direção, a uns trezentos passos de distância. Súbito seu coração começou a pulsar violentamente, sua vista escureceu, suas pernas bambearam e um calor intenso subiu por sua espinha. Sentiu-se bêbado, torto, estava completamente apaixonado por aquela misteriosa mulher que acabava de avistar. Parado, sem ação, acompanhou seus passos cada vez mais próximos. Quando o avistou, ela já se encontrava a uns cem passos dele e assustada, parou também. E ficaram assim, postados um na frente do outro, olhando-se diretamente nos olhos por um tempo incontável. Ela deu uma passo para trás e ele, um à frente. Ele deu outro passo e ela não se moveu. Naquele momento, sentiu seus pensamentos esvaindo, seu peito esvaziando. Não ouvia nada, não enxergava nada, apenas ela, era como se todo o mar, toda a areia e todo o céu deixassem de existir num piscar de olhos. Ela, apenas ela e nada mais. Deu mais um passo adiante, ela novamente não se moveu. Mais um passo e desta vez, ela deu outro, em sua direção. A alegria já não podia ser contida. Seus olhos brilharam, as mãos suaram e os pés tremeram; por dentro, como uma locomotiva desgovernada, seu coração parecia bater em todas as partes de seu corpo. Mais dois passos e ela repetiu o mesmo movimento. Agora já estava evidente. Por mais estranho que fosse, por incrível e absurda que parecesse aquela situação, estava claro que ela tivera exatamente as mesmas sensações que ele. Aturdida, por um breve momento pensou em fugir, com medo daquele torpor insano e flamejante que tomava sua alma. Mas ao vê-lo caminhando em sua direção, nada mais pôde fazer; ela também estava entregue, completamente apaixonada por aquele estranho.
Assim, pé ante pé, encontraram-se no meio da praia. Pararam a um passo um do outro e contemplaram-se. Imensurável é o que se pode dizer do tempo decorrido neste longo e profundo olhar. Galáxias foram visitadas, universos inteiros descobertos; antigos mistérios desvendados e ensinamentos milenares apreendidos. As ondas batiam e faziam seus pés afundarem cada vez mais na areia fofa. Uma sensação de leveza tomou a ambos e sentiram-se completamente extasiados; naquele paraíso terreno, com os pés nus em contato com todo o universo, estavam perdidos na imensidão dos olhos do outro. Agarraram-se ali mesmo, num frêmito conjunto e extravagante. Beijavam-se com tamanho gosto que parecia não se verem há séculos, milênios, eras. Era um beijo doce, molhado, profano; suas línguas se encontravam nervosamente dentro das bocas, as mãos percorriam o outro com extrema perícia, como se cada um deles conhecesse cada ponto secreto do corpo do outro. O calor de fogo era insano, maldoso, sincero.
Largaram-se mutuamente após o longo e escandaloso beijo. Entreolharam-se: a perplexidade estava estampada na face de ambos. Procuraram palavras, mas estas não existiam naquele momento. Pareciam perdidos, como se acabassem de sofrer um acidente terrível e, em estado de choque, procurassem entender como saíram ilesos. Estavam atônitos, boquiabertos. Olhavam-se na inútil esperança de que algum deles pudesse explicar ao outro o que estava acontecendo. Não adiantava, nunca nenhum dos dois havia sentido tão estranha e poderosa sensação.
Finalmente, deixaram de tentar entender qualquer coisa. Ela o tomou nos braços e deu-lhe um beijo, desta vez calmo, profundo. Lentamente começou a desabotoar sua camisa, dando leves mordicadas em seu peito moreno. Ele tirou seu vestido calmamente e contemplou, ofuscado, a beleza de seus tenros e alvos seios: os mamilos enrijecidos, as auréolas arrepiadas; beijou-os. Desceu o olhar e desvendou sua barriga, a cavidade perfeita do umbigo, onde jaziam alguns poucos pelos loiríssimos. Suas coxas eram as mais belas que já havia visto: estavam arrepiadas, e rapidamente ajoelhou-se para beija-las. Passando a língua pela virilha sentiu o corpo dela estremecendo. Levantou e procurou sua boca: beijavam-se novamente com violência. Ela desabotoou suas calças e tomou nas mãos um membro rijo, quente, pulsante. Loucos de prazer, entregaram-se ali mesmo a um romance tórrido, tornando-se uma só pessoa num longo e inacreditável gozo.
Permaneceram juntos muito tempo depois daquele encontro maravilhoso. A cada dia seus corações tornavam-se mais unidos, suas personalidades se fundiam cada vez mais. Era como se somente eles existissem sobre a face da terra. Quando separados, o tempo passava lenta e dolorosamente; juntos, a eternidade parecia esgotar-se em minutos. Viam-se diariamente, falavam por horas ao telefone. Os amigos mais próximos viam aquela relação aparentemente doentia com estranheza, não conseguindo entender como duas pessoas poderiam se amar tanto sem desgastar o sentimento que nutriam um pelo outro. Claro que nessa estranheza jazia um pouco de inveja, afinal, não faziam parte de algo tão comovente quanto a relação deles.
E eis que sutilmente aquela paixão tremenda foi mostrando seu lado sombrio. Aquela relação estupenda e avassaladora em breve cobraria um preço altíssimo de um dos dois.
Uma angústia insuspeitada e febril vinha lhe tomando o peito todas as vezes que se encontrava com ela. Sabia que aquilo não tinha nada a ver com seu sentimento: continuava a amá-la cada dia mais intensamente. Era uma outra coisa, maldita e misteriosa, que acontecia com ele. Durante muito tempo conviveu como se nada o atormentasse. E conseguiu disfarçar sua tensão tão bem que ela mesma demorou a notar as diferenças sutis que logo tornariam-se gritantes.
A angústia provinha de uma dúvida cruel, que martelava em sua cabeça: até quando? Essas eram as palavras que davam origem a todo seu desconforto. Por mais que analisasse seus sentimentos, não conseguia encontrar algo mais profundo que aquelas duas singelas palavras. Tentou, de todas as formas, afastar aquela desconfiança boba de seu coração, mas já era tarde. A dúvida o havia dominado por completo. Todos os dias maravilhosos desde aquele espetacular encontro na costa começavam a pesar dentro dele. Sentia medo ao pensar que tudo poderia um dia cessar, que os sentimentos dela pudessem mudar, ou pior, que seus próprios sentimentos viessem um dia a findar. Não, não seria possível, amavam-se loucamente. E por que agora essa dúvida, esse medo descabido? Era só encontra-la, beija-la que o pavor de perde-la novamente o inundava.
Começou a evita-la. No começo, tudo parecia como uma crise comum, dessas que todo casal apaixonado passa ao menos uma vez. Em pouco tempo, ficou claro para ela que algo maior que uma simples crise estava começando a tomar forma. Tentou o diálogo, mas toda vez que se aproximava e tocava no assunto, ele esquiva-se com asco e acuado fugia. Com um forte medo de perde-lo, ela foi deixando de questiona-lo. Amava-o muito, e se para ficar ao seu lado tivesse de nunca mais dizer uma só palavra, assim o faria. A situação foi sendo arrastada a um ponto insuportável para ambos.
Foi então que a idéia subitamente arrebentou-lhe as idéias: mata-la. Sim, era óbvio. Se ela não poderia ser dele, não seria de mais ninguém. Mas em que estava pensando? Delirava? Que absurdo era aquele de tirar a vida da coisa mais preciosa de sua vida? A partir dali teriam início as longas caminhadas pela praça, as longas e extenuantes reflexões que dedicaria àquele tenebroso assunto, os eternos e dolorosos diálogos que manteria consigo mesmo a fim de encontrar uma solução para tão delicado impasse.
Inúteis eram todas e quaisquer investidas para tirar de sua mente a idéia fixa de mata-la. Por fim, a imagem da lâmina crua da faca rasgando o peito nu de sua amada era tudo o que conseguia vislumbrar.
Havia dois dias que não tinha notícias dele. Desde o primeiro beijo, não tinham conseguido passar mais que algumas horas longe um do outro, e agora aquele estranho sumiço. Claro que a relação já não estava como antes. Por algum motivo obscuro, os dias maravilhosos haviam transformado-se em martírios sem fim. Mesmo assim, a saudade era enorme e preferia ficar ao lado dele mesmo que não trocassem um olhar sequer durante todo o tempo que passassem juntos. Explodindo de ansiedade, resolveu procura-lo. Sentia que sua vida nunca mais faria sentido se não o visse naquele instante. Foi diretamente à praça. No caminho, tentou compreender o porquê de não tê-lo procurado antes. Talvez o medo de que algo terrível aconteceria assim que se vissem fosse a resposta. Era. Ouviu as oito badaladas do sino da igreja assim que atravessou a rua em direção à praça. Parou no meio dela, ao lado do coreto, e passou a olhar em volta na esperança de encontra-lo. Um canto escuro e afastado chamou-lhe a atenção: não conseguia ver o que ali havia, mas como que hipnotizada, dirigiu-se para lá. A alguns passos do obscuro local, parou. Imóvel, com um olhar ardente, mirava o amante diretamente em seus olhos. Quando ele saiu do esconderijo e postou-se diante dela, o mundo parou de girar: os pássaros estagnaram em pleno vôo, as nuvens deixaram de se mover e as árvores cessaram seus leves movimentos; nem mais o vento soprava. As pessoas desapareceram num piscar de olhos e todo o universo, exceto os dois amantes, congelou no tempo. O único som que ouviam era o bater acelerado de seus próprios corações. Uma lágrima delicadamente brotou e desceu pelo rosto dela; ele estremeceu e sentiu um calafrio mortal trespassando seu corpo. Sacou do bolso a adaga que há muito o acompanhava e a sentiu tremendo em suas mãos. Ao avistar seu reflexo pálido na lâmina fria da faca, ela caiu de joelhos e deixou rolar o pranto que há tempos lhe sufocava a garganta. Quando ela lhe estendeu os pulsos e fitou-o com um olhar cheio de compaixão e tristeza, ele também desabou em lágrimas. Percebeu, naquele momento, que ela sofrera exatamente as mesmas penas que ele durante todo aquele período de angústia interminável. Ela novamente lhe estendeu os pulsos. Com a mão trêmula, ele apertou o mais forte que pôde o cabo da adaga contra sua palma e com dois golpes certeiros, fez jorrar o sangue de sua amada. Ela deixou os braços caírem nas coxas e abaixou a cabeça, chorando um choro abafado e tênue. Ele, atordoado e desiludido, cortou os próprios pulsos deixando escapar de suas veias um sangue sofrido. Olharam-se pela última vez e um sorriso tímido brilhou no rosto de ambos. Abraçaram-se sentindo o sangue quente do amante escorrer pelas costas. Assim ficaram até que seus corações, compassados e em conjunto, deram a última e dolorosa batida, e seus corpos caíram ao chão. Imediatamente o mundo voltou a girar.
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