Sunday, December 11, 2005

cicatriz

Taciturno. Esse era o adjetivo que melhor lhe descrevia depois daquela noite de outono.
Havia voltado cabisbaixo, não falara com ninguém. Enfiara-se em seu quarto e lá permanecera por dois dias e duas noites.
Assustados e um tanto surpresos, os moradores - alguns deles o tinham em grande estima – não tiveram coragem de procura-lo; sequer bateram à sua porta. Ele, que vivera até então sempre falante, no meio de todos, o tipo de indivíduo cativante, mesmo aos olhos da mais sombria das criaturas, não mais era visto. Dormia durante o dia, esgueirava-se porta afora durante a noite. Voltava quando os primeiros raios de sol principiavam aparecer; em seu quarto, trancava-se até que a bruma espessa cobrisse a rua com uma sordidez pronta a acolher aqueles que teimam em permanecer anônimos.
Muito foi dito sobre sua conduta. Muitos ainda tentavam encontra-lo, conversar com ele; mas mesmo quando cruzava um conhecido e este lhe dirigia a palavra, lançava um olhar vazio, perturbador, e seguia seu caminho, incólume.
Assim como o tempo, também o interesse dos moradores naquele caso incomum passou. Após algumas semanas, não mais davam falta de sua presença, sequer lembravam das estórias divertidas contadas ao pé da escada, em volta da fogueira, sempre acompanhadas por suas gargalhadas estrondosas e seu sorriso enigmático. Quando, numa roda de conversa, alguém suscitava o assunto, logo outro se apressava em desconversar, introduzindo qualquer fato banal que era imediatamente discutido com exagero – afinal, seres humanos não costumam desperdiçar saliva com quem lhes vira as costas.
Tinha quatorze anos quando mudara para um vilarejo que logo se tornaria palco dos atos transformadores de sua vida.
Como toda criança, cedo tratou de conhecer todos os moradores. Passava a maior parte do dia praticando as mais diversas travessuras com as outras crianças e à noite, ao pé da escada, sentava-se perto do fogo para ouvir os mais velhos. Admirava os gestos e os brados daquelas pessoas ao mesmo tempo tão frívolas e interessantes, encantando-se com estórias fantásticas e causos duvidosos. Não tardou para que suas observações, embora pueris, fossem tomadas com respeito e algumas vezes até com certa admiração pelos principais articuladores das reuniões.
Passados alguns anos, era o centro das atenções nas rodas de conversa: suas estórias e suas risadas eram apreciadas por todos; e muito mais silenciosos e sisudos eram os encontros quando se ausentava por qualquer motivo.
Foi numa noite, após um belíssimo pôr do sol que só o brilho do outono pode propiciar, que resolveu dar um passeio antes de ir ter com os companheiros da fogueira. Caminhando em direção à ponte que levava à região mais erma do vilarejo, notou um prédio que até então não havia lhe chamado a atenção. Era um edifício pequeno, de uns quatro andares, e pelo que pôde calcular, deveria haver ali mais de cinqüenta apartamentos. O fato estranho era que de todas as janelas, apenas uma estava iluminada - pelo que parecia ser a chama de uma vela - como se naquele prédio houvesse apenas um apartamento ocupado. Até então, nunca caminhara por ali à noite, de modo que nunca passara por sua cabeça que aquele era um edifício quase completamente abandonado.
Com a curiosidade de adolescente aguçada, subitamente caminhou em direção à entrada do edifício, como se esta exercesse uma estranha atração. Subiu as escadas que levavam ao primeiro andar e caminhou pelo corredor interno examinando porta por porta - fez isso igualmente nos dois andares seguintes. Por fim, chegou à conclusão de que sua primeira avaliação estava correta: o prédio era habitado somente por quem havia acendido aquela vela, já que a janela iluminada situava-se no quarto andar e os apartamentos antes analisados encontravam-se desocupados.
Dirigiu-se rapidamente para o último andar, num misto de pavor e excitação. Como o corredor fosse escuro, pôde perceber uma luz advinda por debaixo da última porta do lado direito. Aproximando-se devagar, de uma certa distância, notou que a porta encontrava-se semicerrada. Pé ante pé parou defronte à entrada do apartamento, sentindo o bater do coração acelerado e a cadência dos pensamentos cada segundo mais veloz. Abrindo a porta da maneira mais delicada que pôde, adentrou o recinto.
Era um quarto de médio porte, escuro e abafado. Em seu interior havia poucos móveis: uma cama, um armário ao lado direito da porta e no canto oposto, um pequeno pedestal. Em cima do pedestal repousavam um pote de vidro e a vela que tanto instigara sua curiosidade. Na cama, estava deitado um homem nu, de uma pele tão alva que chegava a refletir os movimentos hipnóticos da chama da vela. Dentro do vidro, mergulhado em algum tipo de líquido, um coração humano muito bem conservado. Aproximando-se, notou que na parte inferior do pote havia uma etiqueta com um nome nela inscrito. Com uma naturalidade descabida perante aquela situação bizarra, aproximou-se da cama. O homem, apesar da pele muito pálida e do aspecto cadavérico acentuado por sua gritante magreza, possuía feições belíssimas. Caminhou em direção ao armário e, abrindo suas portas, a sensação de estranheza que ainda não havia surgido subitamente tomou-lhe de assalto: vislumbrava outros corações conservados naquele mesmo líquido. A única diferença visível entre estes e aquele do pedestal era os potes não conterem nenhum tipo de identificação. Os corações do armário não possuíam nomes.
Um grito, estridente e assustador, foi ouvido pelos moradores na fogueira. Assombrados, imediatamente começaram a correr na direção do estrondoso clamor. Um deles, tomando a liderança, disse que o grito vinha do prédio afastado que ficava perto da ponte. Por um breve momento, todos sentiram um calafrio na espinha e pensaram em parar; mas como o líder já se distanciava e parecia deveras destemido, voltaram a correr, seguindo seus passos. Rapidamente subiram as escadas do velho edifício até o quarto andar – todos sabiam que naquele prédio havia apenas um morador. Aglomeraram-se, atônitos, à porta do apartamento, pois nenhum deles teve coragem de entrar diante da cena horripilante que presenciavam. Dentro do quarto, uma menina ensangüentada, trêmula, chorando e soluçando a ponto de engasgar, segurava um pedaço de vidro em uma das mãos e na outra, um coração ainda quente e pulsante. No chão, entre cacos de vidro, havia um outro coração, frio e morto, ao lado de uma peça de madeira em cuja etiqueta lia-se Helena. Na cama, jazia o taciturno, morto, com o peito rasgado, coberto de sangue.
Foi um enterro magistral. Todos os moradores, emocionados, choraram ao lembrar do amigo há muito esquecido. A menina, ainda um pouco traumatizada e com as mãos enfaixadas, não compreendeu aquelas demonstrações de carinho, aparentemente excessivas, a alguém que haviam evitado durante tantos anos. E foi exatamente a ela, após o assassinato, que todos acabaram virando as costas. Os cortes nas mãos jamais cicatrizaram: morreu sozinha sem nunca matar outro homem.

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