Discutiu. Discursou solenemente sobre entes concebidos, fatos descabidos e atos distraídos. Quando optou, cansado, se calou.
E foi matar-se. Engraçado o fato de a morte tornar-se o grande atrativo de sua vida. Quando vivo, nada tinha de muito relevante a acrescentar.
Dirigiu-se à praia. Parou no meio do caminho, entre o mais longe e o mais curto. Pensou um pouco. Curioso o fato de pensar a beira da morte. Durante toda sua vida, o pensar fora sua grande prisão e agora que estava decidido, talvez pela primeira e última vez a agir sem pensar, pensava.
Pensou um pouco mais. Renegou os pensamentos de fraqueza, encheu os pulmões e resolveu que para entregar-se ao abismo, aguardaria um convite.
Morreria devagar. Ponderou: se era para morrer, que fosse em local agradável. Não demorou a escolher o lugar perfeito.
Foi pra casa: a morte não pedia pressa.
Demorou em percorrer os corredores minúsculos, divagar sobre objetos obtusos e vagar por cômodos obscuros. Despediu-se do leito como quem não cria vínculos.
Chegando ao portão, parou. Remexendo os bolsos, achou algumas poucas notas e as contou. Poderia seguir adiante: a morte não custava caro.
Chegou. Tomou um tempo justo para decidir o local exato da morte. Caminhou, olhou em volta. Deitou-se de frente à igreja, não por ser religioso, simplesmente a arquitetura o agradava. E sabia, comprovadamente, que se a morte durasse alguns dias a mais, poderia ver uma, duas, quem sabe três luas passarem.
Sentiu fome – a sede tornara-se passado.
Virou notícia deitado ali. Durante três dias, foi tomado por invisível, depois indigente, indesejável, intransigente, insano, intelectual, indescritível e por fim, inapto a viver. Deixaram-no morrer.
Muitos vieram vê-lo: conhecidos, anônimos, curiosos e homônimos. Alguns fanáticos tentavam seguir seus passos deitando ao seu lado e lá ficando, até que a fome ou as picadas de formigas os incomodassem tanto, que desistissem de morrer.
O vilarejo em que tudo aconteceu, anos depois, ainda era lembrado. E muitos, muitos anos depois, mitos, lendas e fábulas ainda jorravam de suas terras.
Fitava o céu, sempre. Dormia quando lhe convinha, abria os olhos ao despertar, fitava o céu e voltava a dormir, sem nunca mexer um músculo sequer. Permanecia inerte, mudo, quase surdo.
Definhava. Na primeira lua, já era praticamente pele e osso. E a morte passou a ser visível: a cada dia, hora ou – para os mais assíduos – minuto, notavam-se singelas mudanças em seu já deformado e pútrido corpo.
As beatas benziam-se, os bêbados, o respeitavam, mas eram as crianças quem mais pareciam compreender aquela morte estúpida. Davam vidas ao morto inventando estórias, espantavam os urubus, enfeitavam seu crânio com coroas de flores e espinhos. Ou simplesmente catarravam em seus ossos, rogando pragas e fazendo pilhérias.
Quando cresciam, esqueciam todas as vidas que o morto lhes dava e tentavam, em vão, entender o porquê do fascínio de seus filhos e netos por aqueles ossos velhos, fétidos e praticamente esquecidos.
Fizeram-no uma cerca e ergueram-lhe um busto, baseado em fotografias tiradas no início de sua jornada. Decretaram o dia do morto, feriado no vilarejo e ponto facultativo no restante do município. A escolha do dia – que simbolizaria o dia exato de sua morte - foi um tanto arbitrária, já que muitos acreditavam que, mesmo depois de passados dias sem ao menos uma piscadela, o morto continuava vivo. E quando finalmente virou pó, o morto deixou de ouvir.
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