Sunday, December 11, 2005

do peixe ao vento

Sinto-me, como tu, reduzido em ser chamado sistema ou relógio. A vida realmente não é condensável assim. As cousas existem por serem cousas, e se possuem sentido íntimo, é porque aceito minha própria mentira.
Talvez esteja realmente surdo, e as sinfonias estão a tocar e a tocar, os astros a dançar e a dançar e meus barulhos a me entreter e desviar. Já não me é permitido sentir toda a harmonia celeste; meus umbigos tomaram conta de meus sentidos, a cegueira é inconteste.
As luzes, sim, as luzes. Estou apenas ofuscado pelas luzes; sobre as lâmpadas à minha volta a verdadeira luz me observa. E como se tivesse uma voz, pois minha essência humana lhe dá cordas vocais, pergunta por que meto-me eu bem debaixo das luzes, se estou sinceramente procurando vê-la. Faltam-me palavras e concordo quando ela me chama de hipócrita; as lâmpadas existiram sempre, eu é que insisto em cumprimenta-las.
Aceito então, pela escuridão - esse confortável torpor que ilude ao emprestar-me seus sentidos - continuo minha busca inútil. Vagando por países vazios e salas cheias de gente, pergunto-me se algum dia poderá a luz saber perdoar; eu que sempre acreditei ser-lhe fiel estou agora às apalpadelas procurando interruptores.
Mas, a esperança vem aos meus pulmões quando consigo respirar profundamente. Não é uma total falta de tato apenas o que me prejudica. Sei que se existirem deuses, são jogadores inveterados. Não teriam feito a vida surgir veloz para esvair-se em lentidão se não o fossem. Facilitariam minha vida, nascendo-me velho e matando-me no útero; poderia assim passear quando vivo, viver andando e correr para a morte.
O tempo é um andarilho controverso e enganador. Tento em vão acompanha-lo, pois sempre que me percebe por perto (ou finge que percebe, para deixar-me ao menos contente), piadista como é, esquiva-se. Aparece em forma de relâmpago e esconde-se na folha marrom do outono; forma-se longínquo como uma onda e quebra na praia e já é areia. Procuro entre os dedos dos pés, conto os planetas, contemplo as estrelas e desisto. Pois que quando menos espero, lá está ele, saltando e sorrindo para mim. Nos momentos em que menos quero vê-lo ele insiste em cativar, fitando-me com aquela onipotência jocosa de quem não precisa saber envelhecer.
Talvez seja a distância culpada por fazer o tempo despir-me; não há tempo que resista às suas investidas: por mais tempo que gaste, continuo cumprindo a metade da metade. Será justo tanto caminhar, apenas para encontrar utopias que me fazem mais caminhar? Eus machos e minhas fêmeas não temos respostas, pois estamos deveras ocupados desconstruindo meus machos e as fêmeas de eu mesmo.
Às drogas, dedico o papel de enzimas. Meu corpo é levado às enzimas e a elas concedo a chave das portas... se ao menos as fechaduras fossem modernas, daquelas em que se passa um cartão e luzes e sons desarmam as travas. Sinto que mesmo possuindo todas as chaves, encontrarei portas intransponíveis, dar-me-ei com passagens mais frias que o próprio gelo, sentirei angústias tão antigas quanto a própria carne.
Se o poeta estava certo, não sei dizer. Talvez a resposta esteja na mão esquerda da aurora, talvez não. Talvez o sonho seja o senhor dos meus delírios, talvez não. Talvez o talvez já não me baste; talvez sim. Talvez a vida seja isto mesmo, prosseguir perguntando sem almejar respostas; talvez não.
A dúvida me persegue, me transmite; transcende o ser dúvida: mantém-se a dúvida mesmo em momentos de dúvida. Nada mais propício: causa-lhe algum mal a interrogação?

No comments: