Sunday, December 11, 2005

o amanhã do ontem

Hoje antigas feridas despertaram abertas. Os lençóis manchados de um vermelho pútrido fediam tamanha carniça que resolvi queima-los.
... o teto respirava e aquele movimento pulmonar tragava-me junto: ora eu era teto ora cama. Da espiral nauseante de olhos inebriados surgiam formas e cores e as texturas dela. Sua pele rangia na minha e o som da fusão do meu corpo ao dela acariciava a mente enquanto navalhas finas trespassavam minha carne com extrema perícia e dissimulação. Machucava-me cirurgicamente...
Fiz disso um evento: em praça pública enrolei-me naqueles pedaços sujos de pano e entoei preces medíocres e recitei peças de efeito. Por fim, aos berros, atirei os púrpuros ao chão e num gole de álcool com fósforos em mãos taquei fogo em lembranças dificilmente esquecidas com breves chamuscas.
... pois frente à lareira seu sorriso pareceu perfeito: haviam semanas que eu amava essa mulher e quanto mais com ela fazia mais queria: o calor do fogo refletido em sua pele alva atiçava os sentidos dum eu carente e adormecido. O cair da alça, a palavra sem jeito; na volta da cozinha a delicadeza com que ela soprava o café, tudo; seus movimentos eram preciosos...
Ontem a louca me atiçava dizendo coisas tão pérfidas quanto em nosso primeiro encontro. Dizia não, sussurrava e gemia enquanto via que quanto mais lasciva era mais prazer estranho suscitava. Era como se acossado permanecesse entregue a quaisquer palavras proferidas por aquela deliciosa imensa boca. Levou-me por caminhos incertos e de frente encarei demônios; olho no olho com temíveis senhores de medos meus senti calafrios. Tremia como se os pés estivessem fincados nus em gelo polar. Enfim sucumbi.
... porque você não ama ninguém! Com aquele jeito dela depravado de trepar, destrinchava e esmiuçava os pormenores dum eu ser consciente e que feliz, trepava. E você, me ama? Amo, amo a parte reservada, aquela que você, egoísta, me dá. Eu amaria todo o resto do resto do seu todo, mas você calcula quando sentir deveria. Um mês e o que me deu foi a tua pele...
Amanhã saí e bebi muito. Por algumas poucas horas quase esqueço que uns vieram querendo levar-me preso, outras levar meu número. Os olhos inchados na manhã do espelho seguinte fizeram-me tossir ao sentir peito e crânio explodindo num misto de êxtase e desânimo.
... sete horas da manhã e um louco envolto em trapos começa a discursar. À primeira vista mais um com uma caneca ou um chapéu esperando a boa vontade de transeuntes acostumados a mambembes fora de hora. Mas não, o espetáculo não fora ensaiado nem a estréia anunciada: as dores estavam ali, expostas; o ritmo, nervoso, cadenciado de improviso...
De noite voltei à praça. As cinzas permaneciam exatamente como as havia deixado: cinzas. E por mais que tentasse não havia como negar o revérbero de sentar-me num banco propício e num ato sentir-me parte de toda aquela praça, todo aquele mundo; sentir-me parte do tempo, cruel.
... eram ainda brasa e queimaram as mãos dum eu confuso: o dia sofrido que era sonho ardia agora numa realidade pura, inquestionável. De palmas sujas ouvi novamente os gritos dos estranhos que apoiavam, dos conhecidos que negavam, dos distraídos que apenas observavam. Dos sábios e dos leigos recebi as mesmas dúvidas: destes o quando e daqueles o porquê...
Ontem acordei e cedo era ainda quando levantei da cama para banhar o corpo. Tomei café e refleti e só depois do almoço o primeiro cigarro virou fumaça. Era labuta e os afazeres dominaram pensamentos e ações. No ocaso voltei pronto a ter uma boa noite de sono, daquelas em que sonhos, por mais perfumados, não conseguem atrapalhar. Banhei-me novamente e ridículo nos pijamas adormeci.
... uma massagem despropositada nos ombros surgiu e eu deitava numa rede enquanto ela acariciava meus cabelos cortados no dia anterior: incomodava pra dormir. Despertei e meus olhos frenéticos a procuraram imediatamente e quando a respiração cessou de ofegar o vazio dum quarto vazio verteu lágrimas. As paredes úmidas me encararam uma última vez...
Foi aí que ela veio arrebatadora como só ela sabe ser e arrancou-me da cama e fez-me voar.
... pelo cheiro dum ventre invadido, e agora eu era um bicho e de minha cabeça emanava uma luz que encontrava a luz dela e percorria seu corpo já suado e mole com ferocidade, enquanto duma outra luz que vinha de baixo, eu recebia um calor sórdido e nessa quentura de verão baiano eu me entregava à volúpia desmedida duma ela senhora de prazeres ocultos e eu à flor da pele...
Perfeito e sublime quando ela jocosa arremessou-me ao chão. Pelo pescoço agarrou, chocalhou e fitou meus olhos e sorriu; e lá fui eu, setecentos e cinqüenta e dois quilos de mágoa de encontro ao leviano solo terrestre.
... naquela mesma hora senti que a dor era mais do que uma simples dor ordinária: o tom ensurdecedor daquele telefone mudo retorcia meus músculos e estes pareciam querer esmigalhar meu esqueleto. Nas veias corria um rio gelado e meu coração e meus pulmões forçavam para fora da minha carne e meu intestino enrolava-se na garganta sufocando o resto de ar que havia...
Enterrado naquela cratera permaneci apavorado, ainda que incólume, e aguardei a próxima viagem com ouvidos de pastor de ovelhas. Até hoje tenho dúvidas se ela acordou com o tempo, pois décadas passaram e num sem número de eras depois ela se fez cratera. Envolveu com muitos braços um eu fraco e, murmurante, pôs-me num ninho quente de tão doce quase desumano.
... e era verão novamente mas desta vez o calor me acolhia por todos os lados: eu pairava num mormaço gelatinoso e ela veio e sensualmente dançou pra mim: a tomei nos braços e agora ao som de sinfonias deslizávamos por um belo salão de mármore e ela trajava gala e eu trajava gala. Como num tango meus olhos não se separaram dos dela e os passos revelavam maestria...
Em meio a pedras soltas e raízes longas e espessas e restos de ossos de outrora enterrados fui levado ao fundo daquela terra ferida. Depois de fraco um covarde, omisso, um impotente. Eu não reagi e antes disso nunca agi, nunca fiz. Naquele denso colo sádico e convidativo, o eu, cru e despido, foi arrancado de seu nobre pedestal e atirado numa cela escura três por dois de cujo resto de janela, da penumbra duma luz distante, emanavam sombras do doente que sempre fora.
... corri, e quanto mais rápido ia mais longe a avistava. Gritei até perder a voz e ela indiferente. Parei e em minha direção ela veio e atravessou-me como fumaça. Disperso, tentei uma última artimanha: num ato desesperado arranquei minha pele e, esquecendo antigos conselhos, ajoelhado ofereci todo meu invólucro. De olhos aguados e mágoas latentes tomou a pele, vestiu, beijou-me e sumiu.
Acordei dopado e preso olhei pro teto e sorri.

1 comment:

Newsandseduction said...

Propoganda?